Pelo Mundo

Blog dos correspondentes da Folha

 

América

Chuck Norris e coletes de lã

 

Luciana Coelho, de Columbia (Carolina do Sul)

Na briga para acabar com o favoritismo de Mitt Romney e vencer na conservadora Carolina do Sul, o ex-presidente da Câmara Newt Gingrich arrumou um cabo eleitoral que não pede voto, ordena.

Sim! Chuck Norris, o ator de filmes de ação/mito da internet, declarou ontem que apoia Newt. (Se você não sabe do que eu estou falando, explicação e memes aqui e aqui). E o candidato agradeceu sarcasticamente: "Ele daria um ótimo secretário de ataque". De sua campanha, veio o tweet: "Norris declara apoio a Newt. Rivais tremem."  

Piadas à parte, Norris _que por muito tempo presidiu a principal associação pró-armas dos EUA, a NRA (American Rifle Association)_ é a mais recente das vozes ultraconseravdoras a colocar suas fichas no ex-deputado. Antes dele vieram a musa do Tea Party e ex-governadora Sarah Palin (embora seu endosso valha só para a Carolina do Sul) e Rick Perry, que abriu mão de sua própria candidatura, à míngua, para apoiar o ex-rival.

Enquanto isso, Rick Santorum tenta outra tática para animar a ala mais à direita: moda. Ontem ele começou a vender, para simpatizantes que contibuam com ao menso US$ 100 para sua campanha, o infame colete de lã que ele enverga faça chuva ou sol.

Interessado em comprar? O link está aqui. "Não deixe as mangas te atrapalharem." "Perfeito para mostrar solidariedade aos verdadeiros conservadores."

Escrito por Luciana Coelho às 13h01

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Restam cinco

Huntsman, que anuncia nesta segunda sua desistência a favor de Romney, segundo a mídia americana, pode voltar em 2016 (AP)

Luciana Coelho, de Washington

Jon Huntsman, o lanterna entre os candidatos republicanos à Presidência dos EUA que pontuam, vai pular fora da disputa nesta segunda e declarar apoio a Mitt Romney, o favorito. Já vazou na mídia americana. Com isso, sobram cinco na disputa: Romney, Newt Gingrich, Rick Santorum, Ron Paul e Ricky Perry.

Estou contando as horas para Perry desistir. Antes da saída de Huntsman, aliás, este post seria sobre ele.

Como é possível que um sujeito que entrou na disputacomo favorito, em agosto, que não foi alvo de campanha negativa dos rivais (como são Romney e Gingrich), que não tem nenhum grande escândalo até agora para prejudicá-lo (como Herman Cain) despencar desse jeito? Em alguns dos últimos levantamentos nacionais, ele já estava empatando com o quase-liberal Huntsman.

O (de)mérito é todo de Perry. Ele conseguiu se autodetonar. Sozinho, com suas péssimas performances em debates, gafes e letargia ao pensar/falar, mostrou-se um sujeito altamente despreparado e foi atropelado pelos rivais mais hábeis. (Momento "isto é Rick Perry": no último debate, indagados sobre o que estaria fazendo se não estivesse ali num sábado à noite, a maioria dos candidatos respondeu que estaria assistindo às semifinais do futebol com a família, ou conversando, ou lendo. Perry não. Perry estaria treinando tiro.) 

O populista e religioso Rick Santorum, que vinha mais para trás, ganhou fôlego e quase empatou com Romney em Iowa. Neste fim de semana, conquistou algo mais importante ainda, o endosso de cerca de 170 líderes ultraconservadores e evangélicos. Isso deve lhe dar algum gás na Carolina do Sul, o próximo Estado a votar, no sábado.

Parece difícil, a essa altura, alguns dos candidatos realmente derrubar o favoritismo de Romney. Santorum e Gingrich, porém, insistem, na expectativa de conquistar o apoio da ala mais à direita do partido. São ambos teimosos o bastante. E um dos dois, se conseguisse unificar essa base, até poderia representar uma ameaça maior ao ex-governador de Massachusetts. Mas não, eles seguem divididos, o que pulveriza doações e votos (Gingrich, espertamente, tem tentado usar esse discurso para atrair eleitores).

O mais bizarro é que o sujeito com maior caixa de campanha, depois de Romney, vinha sendo Perry. Em setembro ele ainda tinha US$ 17 milhões, enquanto Gingrich e Santorum não chegavam a US$ 2 milhões.

Outro que está bem de caixa e tem bastante apoio é Ron Paul. Mas é improvável que Paul, um sujeito que prega o fim do Banco Central dos EUA e defende o casamento gay porque acha que o Estado não deve se meter na vida conjugal dos cidadãos, conquiste a candidatura. Suas ideias, algumas corretas outras nem tanto, são anticonvencionais demais para um partido que nos últimos anos teve sua agenda sequestrada pela direita mais radical do Tea Party (curiosamente, Rand, um dos cinco filhos de Paul, é um expoente do movimento).

Minha aposta é que Perry não vai além da Carolina do Sul, com Gingrich e Santorum sendo obrigados, então ou não muito depois disso, a decidirem quem continua na disputa e fica com o apoio do outro.

E aí teremos três: Romney, Paul e um conservador mais teimoso à sua escolha, concorrendo até março, quando matematicamente se tornará altamente improvável alcançar o ex-governador de Massachusetts (se ele mantiver o atual ritmo). Parece que com toda a falta de empolgação com Romney e todos os esforços dentro do partido para achar uma alternativa a ele, o discurso da inevitabilidade está colando.

*

Sobre Huntsman, eu o achava um dos sujeitos mais preparados da atual temporada eleitoral. Ex-governador de Utah (com alto índice de aprovação), ex-embaixador na China e uma visão de mundo conservadora sem extremismos (ele não renega o aquecimento global, por exemplo, nem acha que a simulação de afogamento usada para coagir suspeitos de terrorismo em interrogatórios não seja tortura), tinha conquistado o endosso de um jornal respeitável, o "Boston Globe", bem na terra de Romney. Fará falta nos debates.

O Twitter também vai perder suas musas polítcas da atual temporada, as "meninas Huntsman" _as três filhas mais velhas do candidato. Com a conta @Jon2012girls e um humor ácido, tinham mais seguidores do que o pai.

Escrito por Luciana Coelho às 02h46

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O problema republicano

O ônibus de campanha leva Bachmann para a entrevista onde ela anunciou a desistência, dia 4, em Des Moines

Luciana Coelho, de Washington

O Gallup soltou ontem uma pesquisa interessante: o número de eleitores que se declaram "independentes" _não filiados a nenhum dos partidos_ acaba de atingir um pico, 40%.

Declaram-se democratas 31%, e republicanos, 27%. Isso porque nos EUA, onde o voto não é obrigatório, você pode se declarar eleitor de um partido na hora de se registrar. Não te impede de votar no outro, mas serve, por exemplo, para votar nas prévias eleitorais que acontecem agora, quando não há registro instantâneo.

Depois de um ano em que o Congresso mais parou e reclamou do que trabalhou, que os EUA foram rebaixados por uma agência de classificação de risco, que a crise econômica jogou o país em uma crise de auto estima pesada, os índices de aprovação dos legisladores também estão no chão. Nada mais natural que a ojeriza aos dois partidos. E é esse eleitor, cansado e sem a menor obrigação de ir à urna dia 6 de novembro, que Obama e seu rival tentarão motivar.

Do lado do presidente, a coisa vai mal. Em Iowa, ouvi eleitores democratas ferrenhos reclamarem de suas promessas não cumpridas, de sua lentidão em negociar, de sua falta de pulso sobre o Congresso. Ouvi até mesmo gente que disse que, se houvesse alguma chance de o libertário Ron Paul conquistar a candidatura republicana, trocaria o voto no presidente pelo no deputado do Texas.

Mas do lado republicano a situação não é melhor. Outro levantamento do Gallup, este divulgado ontem, mostra que entre os aspirantes à Casa Branca no partido só Mitt Romney é visto como "aceitável" pela maioria dos conservadores do partido e também pelos centristas e os independentes que pendem à direita _mesmo assim, sem grande margem: apenas 59%. Já Newt Gingrich e Rick Santorum, o novo nome do momento, ficam apenas na nota de corte entre os mais conservadores (51% e 50%) e não passam entre os centristas e liberais (36% e 35%).

Rick Perry _que, minha aposta particular, desiste depois da Carolina do Sul_ faz feio de qualquer jeito, com 41% dos conservadores e 29% dos demais. E Paul e o ex-embaixador Jon Huntsman enfrentam uma situação bizarra, na qual são mais bem-vistos pelo centro do que pela direita do partido (mas, ainda assim, não superam 35%, no caso de Paul, e 25%, no caso de Huntsman).

A pesquisa da CBS mostra algo ainda pior: 58% dos republicanos dizem que preferiam outro candidato, alguém diferente dos seis nomes que ainda pontuam na disputa. Não sei se é um indício de que um maluco como Donald Trump, ou se um ex-potencial candidato do partido Sarah Palin, como alguns leitores deste blog gostam de lembrar, ou mesmo Chris Christie teriam alguma chance correndo na terceira raia. O sistema partidário americano torna muito difícil um candidato independente incluir seu nome na cédula nos 50 Estados, deixando sua eleição quase inviável.

Arrisco que isso significa simplesmente que a maior parte dessa gente não vai se abalar para votar em novembro. Principalmente se a retórica maniqueísta for mantida, se o Congresso continuar trabalhando tão mal como trabalhou no ano passado e se os republicanos continuarem se digladiando.

Já se o candidato republicano for escolhido depressa _digamos, na Flórida, dia 31 agora, ou no máximo até a superterça, em 6 de março, quando 11 Estado votam_ ainda há tempo de o partido se unir e tentar reverter a situação.

Por ora, porém, só Michele Bachmann ouviu as urnas e desistiu.

 

 

Escrito por Luciana Coelho às 21h51

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Perry na corda bamba

 

É assim um caucus (na Roosevelt High School, em Des Moines)

Luciana Coelho, de Des Moines (Iowa)

Mitt Romney venceu, Rick Santorum surpreendeu em segundo lugar e Ron Paul ficou em terceiro. Depois de quatro horas e meia de tensa apuração e espera, foi esse o resultado do caucus em Iowa - a assembleia eleitoral pela qual o Estado escolhe os candidatos a presidente (neste ano, só o do Partido Republicano), já que Obama concorrerá a reeleição.

O mais interessante, porém, não é ver quem venceu, já que Iowa dá apenas 28 dos mais de 2.400 delegados votantes na Convenção Republicana, e eles são distribuídos proporcionalmente aos votos recebidos pelos candidatos. Ou seja, como Romney e Santorum tiveram uma diferença de apenas nove votos, o percentual não variou, e ambos devem receber sete delegados (Paul deve ficar com cinco ou seis).

É ver quem perdeu.

Perder em Iowa _perder feio em Iowa_ pode ser fatal para quem tinha pretensões maiores. E é isso que aconteceu ontem com Michele Bachmann e Rick Perry.

Bachmann, a única candidata diretamente ligada ao Tea Party, chegou a liderar na pré-campanha em Iowa, seu Estado natal. Ontem recebeu pouco mais de 5% dos votos, e seu chefe de campanha disse à Fox News ter dúvidas de se ela pode continuar ou não.

Já o governador do Texas já disse ele mesmo ontem que agora pretende reavaliar sua candidatura após ficar com apenas 10% dos votos. Lançado em agosto, Perry chegou a liderar por um mês a disputa, causando sensação entre os rivais. Uma série de péssimas performances nos debates, porém, foi solapando sua candidatura, até ele cair para quarto lugar _posição que agora é ameaçada por Santorum.

Ontem eu tive a chance de assistir mais um discurso de Santorum (havia visto outro em novembro) e foi quase uma situação de vergonha alheia. Falando a cerca de 150 funcionários da seguradora Nationwide, sua figura parecia apequenada pela frieza da plateia. O discurso perdia o ritmo _assim como acontece com ele nos debates. Mesmo as piadas, seu forte, saíam sem graça. E ninguém se comoveu com sua história de vida, contada pela enésima vez, nem pela história de um veterano de guerra que ele disse ser eleitor seu.

Perry de fato parece estar perdendo o fôlego, e tem um problema grave de fadiga: quanto mais tarde ele fala, pior o discurso. Em novembro, ele falou pela manhã, e se saiu bem. Ontem, cansado, parecia não ter forças para concluir os raciocínios. Essa fadiga parece, agora, ter se transportado para a campanha.

Bob Jindal, o governador da Louisiana e visto como vice em uma hipotética chapa encabeçada por Perry, falou no mesmo evento e atraiu muito mais palmas. E advinhe falando do que? Do Brasil. Falou da compra dos jatos da Embraer pelo governo dos EUA e da queda da tarifa do etanol (ambos de forma crítica, claro). Aproveitou, claro, para culpar Obama por ‘perder‘ para o Brasil o que poderiam ser empregos americanos. E foi ovacionado.

Escrito por Luciana Coelho às 06h34

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Sarah Palin, por Julianne Moore

Luciana Coelho, de Washington

A HBO finalmente liberou ontem o primeiro trailer do filme "Game Change" (algo como "virada do jogo"), que toma como base o livro dos jornalistas Mark Halperin (da "Time") e John Heilemann (da "New York"), lançado no Brasil neste ano - apressados podem correr para o final do post.

Mas diferentemente do livro, um impressionante exercício de reportagem que aborda toda a corrida presidencial de 2008, o filme focará apenas no lado republicano _a campanha do senador John McCain. E a personagem central é Sarah Palin, sua vice, vivida pela premiada Julianne Moore (o também premiado Ed Harris faz McCain).

Eu conversei com Halperin no mês passado sobre o livro e a decisão de focar apenas sobre um dos lados ao transpô-lo às telas. Halperin se disse satisfeito com o resultado, já que em duas horas de filme não seria possível tratar de Obama, Hillary Clinton e dos demais pré-candidatos republicanos com igual detalhe.

E a obra de Halperin, um desbocado colunista que já foi suspenso por chamar Obama de "cuzão" no ar, impressiona exatamente pelo detalhismo, pela forma minuciosa com que diálogos e bastidores foram recuperados com os próprios personagens principais e trazidos ao público.

Perguntei se a midiática Palin, mulher, jovem, bonita e carismática, era seu personagem eleitoral preferido. Ele diz que não tem favorito. O diretor Jay Roach, porém, tem clara predileção pela ex-governadora do Alasca (como personagem; como política, eu não sei).

Na internet, fãs de Palin já disseram que a escolha de Julianne Moore para o papel é ruim _que a ex-governadora é mais bonita, mais jovem etc. Eu discordo. Acho Moore uma das atrizes mais talentosas dessa geração, além de linda (lembrem-se dela em "Direito de Amar" _o bizarro nome que "A Single Man" ganhou no Brasil; "Minhas Mães e Meu Pai"; "Ensaio sobre a Cegueira"; "Fim de Caso" e os incríveis "Magnólia" e "Boogie Nights").

A própria Palin também parece ter gostado. Disse estar "ansiosa" para ver o resultado e elogiou seu alter ego em celuloide. Lembremos que ela curte uma mídia extra e leva tudo na esportiva, a ponto de chegar até a fazer uma aparição no Saturday Night Live junto com a genial Tina Fey, que a imitava (não muito elogiosamente, aliás).

O filme estreia em março, quando possivelmente o candidato republicano vai estar claro. Deve ajudar a cotação de Palin e de seu apoio a subirem. De qualquer forma, estou curiosíssima. O teaser me animou, e achei a caracterização impressionante.

Com vocês, o trailer. Que tal Julianne de Sarah?

Escrito por Luciana Coelho às 16h46

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Prestar ou não condolências?

 

Norte-coreanas choram a morte do Querido Líder (Kyodo via AP)

Luciana Coelho, de Washington

Morto Kim Jong-il, os americanos _analistas, jornalistas e políticos_ entraram no debate esperado, sobre qual o futuro de uma Coreia do Norte virtualmente isolada do mundo, com uma bomba nuclear e governada agora, ao que parece, por um pós-adolescente cujo apoio pela estrutura de poder pré-existente é incerta.

Pararam, porém, em algo que parece bem mais prosaico: o governo americano deve prestar condolências a Kim Jong-un, o filho-herdeiro do ditador que dominou a Coreia do Norte nos últimos 17 anos?

A pergunta foi repetida aqui em looping em canais noticiosos, jornais, análises e conversas em think-tanks. A resposta mais corrente foi "não".

"Pode não ser uma boa ideia para Obama expressar condolências. Isso pode ser interpretado da forma errada", disse em conversa com jornalistas da qual eu participei Scott Snyder, diretor do programa sobre política EUA-Coreia no reputado Center on Foreign Relations. Para ele, é preciso dosar bem o nível de "abertura" a mostrar para Pyongyang.

Snyder e outros analistas que falaram ontem sobre o tema, como o pré-candidato republicano Jon Huntsman (que foi embaixador na China), lembraram que a posição frágil em que Kim filho se encontra pode levá-lo a tomar medidas de demonstração de força nos próximos dias (como testar mísseis).

O melhor para os EUA seria, então, esperar para ver onde estão pisando.

Por outro lado, o próprio analista do CFR lembrou que a morte do ditador "apresenta oportunidades", e "há preocupação se os EUA e as potências ocidentais não deveriam se manifestar e sinalizar novas oportunidades de política externa para a Coreia do Norte, indicando que algumas mudanças seriam bem vindas".

Nada disso deve ser feito, porém, antes de a Coreia do Sul - principal aliado americano na região - se manifestar. E os sul-coreanos nada fizeram até agora. Condolências vieram apenas da China e da Rússia.

"A questão da condolência é muito séria, mas é ainda mais sensível na Coreia do Sul. O governo sul-coreano não soltou um comunicado hoje. Acho improvável que os EUA furem a liderança sul-coreana ao tentar lidar com isso", afirmou Paul Stare, especialista em prevenção de conflitos e diretor do Centro para Ação Preventiva, na mesma conversa do CFR.

A Casa Branca está costurado milimetricamente sua declarações sobre a questão, e silenciou sobre a transição em si. Por meio do porta-voz Jay Carney, o governo disse ser cedo para avaliar se a porta deve ficar aberta ou fechada e que o governo americano está em conversas constantes com Japão, China, Rússia e Coreia do Sul (todos eles, além da própria Coreia do Norte, parte das negociações em seis partes para tentar pôr fim ao programa nuclear coreano).

A ênfase tem recaído na necessidade de "preservar a tranquilidade" na Península Coreana, tecnicamente ainda em guerra apesar da trégua assinada em 1953.

A coisa mais perto de condolências coube à secretária de Estado americana, Hillary Clinton, que está em viagem no Japão e reafirmou que seu país está "profundamente preocupado" com a população norte-coreana. E afirmou que os EUA esperavam "uma melhora das relações" com o povo norte-coreano.

Notem que nas duas frases ela evitou se dirigir diretamente ao governo em Pyongyang, seja ele qual for, e evocou a população _linguajar que os EUA costumam reservar, por exemplo, ao Irã.

Mesmo a oposição pisa em ovos para se posicionar. O próprio Newt Gingrich, hoje primeiro colocado nas pesquisas de opinião entre os republicanos e que já se descreveu como um "falcão meia-boca" disse não ter ideia se o novo governo se mostrará mais aberto ou mais fechado.

A questão das condolências e dos sinais a emitir é especialmente complicada porque os EUA já tinham programado, para esta semana, anunciar a doação de 240 mil toneladas em alimentos à Coreia do Norte. Não há informações precisas sobre a situação de fome no país, mas sabe-se que há dificuldades correntes de produção e distribuição de alimentos à população, que eles dependem do programa de alimentação da ONU, e que essa produção foi especialmente castigada por enchentes e um inverno mais longo neste ano.

Esboços desse acordo haviam sido revelados no final de semana pela agência Associated Press. Seria a primeira doação em três anos e o primeiro resultado concreto de meses de negociação envolvendo também Pequim e Seul.

Agora, o futuro da doação é incerto, embora a maioria dos analistas afirme que Washington deva seguir adiante com ela.

Sobre o funeral em si, Obama não precisará tomar nenhuma decisão _ele será fechado para estrangeiros.

Escrito por Luciana Coelho às 20h31

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Trump candidato?

Trump quer mediar um debate dia 27, mas falta quórum (Reuters)

Luciana Coelho, de Washington

O megainvestidor imobiliário e apresentador de reality show Donald Trump quer manter todas as suas opções em aberto.

Em entrevista ontem ao Wolf Blitzer, na CNN, voltou atrás em sua posição anterior sobre não disputar a Presidência dos EUA e disse que pode, sim, ser candidato. E não pelo Partido Republicano, mas como independente. "Se o partido escolher um candidato que não me agrade, pode ser que eu concorra. Estou mantendo as opções em aberto", disse ele.

Mas o que Trump estava fazendo mesmo era jogar. No momento em que a disputa republicana avança para se tornar uma competição entre Mitt Romney e Newt Gingrich, com os demais pré-candidatos tentando subir seu passe para depois poder negociar seu apoio, Trump praticamente chancelou a candidatura do segundo, dizendo que ficou "muito impressionado" com a performance do ex-presidente da Câmara no último mês.

Sobre Romney, disse apenas que o respeitava bastante. E lamentou ter abandonado a ideia de concorrer pelo partido tão cedo, afirmando que, a seu ver, teria boas chances no atual momento.

Pode até ser. Fato é que se o conservador Trump se lançar candidato, quem se beneficia é Obama. O apresentador de "O Aprendiz" não se qualifica na "terceira via" em que se qualificaria, por exemplo, o prefeito nova-iorquino Michael Bloomberg. Ele está mais à direita, e é difícil imaginar que um eleitor de Obama, ou um independente mais liberal na frente social, optasse por seu nome em vez de escolher o atual presidente ou simplesmente ficar em casa, dado o momento-desencanto com a atual eleição.

Trump estaria fadado, na melhor das hipóteses, a repetir o papel do milionário conservador-libertário Ross Perot (do tempo em que era possível haver conservadores pró-aborto), que disputou a Presidência em 1992 e 1996. Da primeira vez, Perot, bancando a campanha essencialmente com o próprio bolso, conseguiu 18% dos votos e foi considerado co-responsável pela vitória do democrata Bill Clinton.

Trump tem a seu favor um nome muito conhecido e a imagem de empresário de sucesso (embora sua experiência com política seja zero, e sua enlouquecida campanha para provar que Obama não nasceu nos EUA não tenha sido uma amostra muito promissora). Por outro lado, a aposta seria alta demais e arriscada demais para um negociante tão bem-sucedido.

Em última análise, a decisão vai refletir o que o empresário/showman tem de maior: a esperteza ou a vaidade?

Escrito por Luciana Coelho às 14h03

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Quem vai ficar com Herman?

 

Cain anuncia que está fora da disputa presidencial, mas não fora de cena (AP)

Luciana Coelho, de Washington

E lá se vai Herman Cain. Erros e problemas a parte, certamente o candidato mais vivo _e todos os sentidos para a palavra incluídos aqui_ desta corrida eleitoral americana.

Cain anunciou nesta tarde, em sua Atlanta natal, esposa ao lado, que estava suspendendo sua campanha. Suspendendo, neste caso, quer dizer encerrando. É que Cain disse que é um "lutador" (de fato), então em vez de tentar mudar Washington a partir de dentro, vai tentar fazê-lo a partir de fora. "Vai ser mais difícil, demora mais, mas vamos conseguir". "O Plano A era concorrer à Presidência. A partir de hoje lanço o Plano B", disse ele, prometendo continuar gritando por aí seu Plano 999 de alíquota tributária única de 9% para negócios, consumo e indivíduos.

Tenho minhas reservas em relação a Cain. Em alguns momentos, ele parecia juntar meio que tudo que há de pior nos últimos presidentes americanos: a inexperiência e falta de tato de Obama, o radicalismo simplista/sem estofo e falta de tato de Bush, o escárnio pelas convenções e instituições do Clinton (nesse o tato até sobrava). Tudo com alguns decibeis teapártycos a mais e muito populismo.

Mas não dá para negar que o sujeito injetou algum ânimo em uma corrida eleitoral antes soporífera.

Tive a chance de ver todos os republicanos _exceto o Jon Huntsman_ discursarem aqui em Washington, na cúpula dos eleitores moralistas (sim, este é o nome, Value Voters Summit). A reação da plateia a Cain era muito, mas muito mais empolgada do que a qualquer um de seus rivais. E a disparada de Cain em agosto e setembro, que o levou de quase traço à liderança nas pesquisas entre os candidatos republicanos, só pode ser creditada a ele mesmo (e a um certo desespero dos eleitores mais conservadores diante de Mitt Romney, vá lá). Não ao dinheiro. Não aos marqueteiros. Não ao establishment. Não a uma popularidade prévia ou a um currículo político extenso. Tudo isso, no caso de Cain, era nulo há quatro meses. O que ele tinha era gogó e carisma.

Exemplos? O discurso dele para anunciar o fim da campanha foi brilhante, do ponto de vista retórico. Foi, certamente, um dos melhores momentos de Cain na campanha. Com a mulher, Gloria, ao lado, disse estar em paz com ela, com Deus e consigo. Criticou o descaso da mídia para com sua candidatura. Criticou o repeteco, em looping, das acusações de que ele teria assediado sexualmente funcionárias suas quando dirigia a Associação de Restaurantes dos EUA e de que teria tido um caso de 13 anos com uma mulher de Atlanta. E disse que elas machucam. E disse que é um absurdo que isso receba mais atenção do que suas propostas de governo.

Ok, as propostas do candidato não são mesmo grandes coisas. Mas ele tem um ponto válido, não? [Parênteses: que país é este onde uma campanha aguenta o tranco de sucessivas acusações de assédio _crime, se comprovadas_ mas não uma de adultério, problema particular entre Cain, sua senhora e a suposta amante?]

Com o discurso, Cain sai por cima, até onde dava. Aliás, sai não -- ele promete ficar em cena. Montou um site, o Cain Solutions (ainda não entrou no ar, já testei), e disse que continuará pleiteando coisas como a reforma tributária, a independência energética e (ouch) a política externa da paz pela força.

O timing foi bom. O ex-candidato, ex-empresário, ex-radialista, nunca político, saiu no momento certo. As acusações já estavam lhe tomando pontos nas pesquisas e dólares na corrida pelo financiamento. Mas, como ele mesmo diz, seu nome hoje é conhecido, provavelmente, por 99,9% da população. Ele ainda aparece em terceiro nas enquetes. E o carisma não acabou. Seu apoio, que ele prometeu dar em breve para algum dos republicanos, vale muito _especialmente entre o eleitorado conservador.

Michele Bachmann foi a primeira a soltar um comunicado, logo após o anúncio, elogiando Cain e sua contribuição à corrida eleitoral. Ideologicamente, Bachmann é a mais próxima para conquistar seu apoio. Mas justamente porque a base eleitoral dos dois é semelhante, e porque a candidatura de Bachmann é levada ainda menos a sério do que era a de Cain, uma aliança entre os dois não mexeria muito na disputa.

Se o escolhido de Cain for Newt Gingrich, porém, a história muda. Afinal, o que falta a Gingrich, o favorito republicano da vez, é o trunfo de Cain: carisma e o fato de ser um "outsider" em Washington. Com uma chapa dos dois, Mitt Romney pode ter problemas. E Barack Obama, aliás, também.

Escrito por Luciana Coelho às 17h47

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A entrevista com Maradona

 
LUCAS FERRAZ
DE BUENOS AIRES
 
Entrevistar Diego Armando Maradona talvez seja o objetivo de boa parte dos jornalistas estrangeiros na Argentina. De longe, é o personagem mais interessante do país.

Craque incontestável, problemático dentro e fora de campo, envolvido em brigas e drogas, técnico de futebol, militante político, enfim, é um dos mitos argentinos como Carlos Gardel e Evita Perón.

Desde o início do ano comecei a fazer contatos para tentar encontrá-lo. Vizinhos do condomínio onde ele vive, em Ezeiza, nos arredores de Buenos Aires, dizem que o ex-jogador pouco sai de casa, onde costuma fazer festas, sempre com os amigos. Só anda de carro. E está sumido até dos restaurantes preferidos da capital.

Há alguns meses, a entrevista pareceu ainda mais difícil: Maradona se mudou para Dubai, onde passa a maior parte do tempo, como técnico do inexpressivo Al Wasl.

Mas uma das ex-mulheres de Maradona me apresentou a um amigo dele, que prometeu intermediar o pedido. Foi simpático, apesar da marra, e disse que iria conversar com "El Diez". Comentou que o encontro poderia ser marcado durante a próxima visita do amigo à Argentina. 

Na semana passada, antes ainda da mãe do ex-jogador morrer, o amigo me telefonou. Tinha a resposta: "Ok, ele topou falar, te dará a entrevista. Mas como se trata de um jornal estrangeiro, o  valor é de US$ 10 mil. O pagamento deve ser à vista, tudo bem?".

Escrito por Lucas Ferraz às 22h50

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Eutanásia política

E agora, Obama? (foto: AP)
Luciana Coelho, de WASHINGTON

Flertando com o fracasso desde o início, a supercomissão bipartidária do Congresso dos EUA incumbida de tirar o país do vermelho acaba de entregar seu atestado de óbito, dois dias antes de expirar o prazo.

A missão do grupo, estabelecida por lei em agosto, era desenhar um pacote que cortasse US$ 1,2 trilhão (quase meio Brasil) do Orçamento americano nos próximos dez anos. Falhou.

A pressa em anunciar o fracasso se justifica: o prazo estabelecido pela lei era quarta-feira, véspera de feriado de Ação de Graças aqui.

Se o fiasco fosse revelado só na última hora, os EUA, em pleno feriado, não teriam como responder às prováveis reações dos mercados internacionais ante a inépcia de seus políticos de chegar a um acordo.

Ao menos, a temida Standard&Poor's, agência de classificação de risco que rebaixou a nota dos EUA em agosto, já deu seu veredicto: a imperícia dos legisladores exposta hoje é a mesma mostrada há três meses e meio; não há razão, portanto, para rebaixar novamente o país.

Menos mau?

Nem tanto. A questão, agora, é o que acontecerá com o caixa do país, onde a dívida já supera o PIB e ultrapassa a barreira dos US$ 15 trilhões (sete Brasis, ou o próprio PIB americano).

A mesma lei que criou a supercomissão determina que, no caso de fracasso, US$ 1,2 trilhão sejam "sequestrados" automaticamente do Orçamento federal em dez anos, a partir de 2013.

Mas impõe apenas que seja descontada a economia com juros e que o restante dos cortes seja repartido igualmente entre gastos de Defesa e gastos domésticos não-obrigatórios. Não há muito mais que isso.

Estima-se, porém, que alvos preferenciais sejam programas de educação, benefícios para veteranos de guerra, dinheiro para investimento em infraestrutura e programas de treinamento, o que deve pesar também sobre a já lenta recuperação do mercado de trabalho do país, onde o índice de desemprego paira nos 9%.

As lacunas também deram margem a uma intensa briga de lobbies nos bastidores, que deve perdurar por todo o ano eleitoral, com prejuízo para todos os envolvidos.

E como era de se esperar, a troca de acusações, já acirrada, começa a ferver.

*

Se a S&P acha que é apenas mais do mesmo, eu estou chocada com o ponto a que as coisa chegaram. Polarização é uma coisa, isso já parece masoquismo.

*

Alguém aí pronto para um presidente Gingrich? Os leitores desse blog (e eu) dificilmente lembramos do ex-presidente do Congresso. Agora, porém, ele é o líder do momento entre os pré-candidatos republicanos.

Escrito por Luciana Coelho às 21h48

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Chelsea Clinton, da NBC

Minha nova colega, Chelsea, que dispensou o salário de repórter de TV (Reuters)

LUCIANA COELHO, de WASHINGTON

Pai ex-presidente, mãe chanceler/ex-senadora, filha jornalista. Chelsea Clinton, a discreta filha de Bill e Hillary, é a mais nova contratada da NBC, anunciou a rede de TV americana hoje. A ideia é que ela funcione como uma "correspondente especial", fazendo reportagens no estilo gente-que-faz dentro e fora do país.

Chelsea, que se formou em Relações Internacionais e fez mestrado em Saúde Pública, trabalhava na Fundação Clinton _onde, aliás, ela deve continuar atuando paralelamente ao trabalho na NBC. Antes, ela passou por uma consultoria financeira, a McKinsey.

Resguardada pelos pais durante toda a adolescência, a ex-primeira-filha vem assumindo um papel público mais proeminente nos últimos três anos. Na campanha da mãe pela candidatura democrata à Presidência, em 2008, ela chegou a conduzir alguns eventos, levantando especulações de que poderia, eventualmente, entrar para a política.

Por ora, Chelsea parece ter escolhido a mídia. Mas isso não descarta a política, já que nos últimos anos se tornou relativamente comum programas estrelados por políticos, e o noticiário não deixa de ser uma forma de torná-la mais conhecida do público, dissociando-a da imagem de menina desengonçada dos anos de Casa Branca (1993-2001).

Segundo a NBC, que é um dos três grandes canais abertos dos EUA, ela deve participar do noticiário noturno da emissora e também no programa semanal noticioso do âncora Brian Williams.

O presidente da emissora, Steve Capus, disse ter escolhido Chelsea por sua "vasta experiência", que, a seu ver, faz parecer que ela "se preparou a vida toda" para o emprego.

A Clinton mais nova não falou sobre o novo emprego. Segundo a mídia americana, porém, ela vai trabalhar por prazer (ou por outros interesses): seu salário (não revelado) será doado ao hospital da Universidade George Washington e à Fundação Clinton, que lida com questões de acesso à saúde pelo mundo.

Escrito por Luciana Coelho às 20h51

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As pedras e a imprensa argentina

LUCAS FERRAZ
DE BUENOS AIRES

Na semana passada, em uma palestra sobre liberdade de imprensa na Universidade de Palermo, em Buenos Aires, o jornalista Jorge Lanata, um dos principais críticos do governo de Cristina Kirchner, foi alvo de ataques de kirchneristas, que o insultaram e ainda tentaram o acertar com pedras _por sorte, erraram a pontaria.

Fumante inveterado, Lanata pediu para falar em um dos pátios da universidade, onde poderia fumar. Estava acompanhado pela também jornalista Magdalena Ruiz Guiñazú. Cerca de 400 pessoas assistiam o debate. Os insultos surgiram das janelas do prédio. Como toda covardia, os agressores não mostraram a cara: acusaram Lanata de vendido, gritaram palavras de apoio ao "678" _programa da TV pública, financiada pelo governo, que se ocupa a malhar jornalistas críticos e opositores_ e atiraram as pedras.

Lanata e Guiñazú foram convidados pela universidade (outros jornalistas convidados não apareceram) para o debate após uma pesquisa da Fopea (sigla em espanhol para Fórum de Jornalistas da Argentina) eleger eles um dos principais referentes da profissão no país _Lanata foi o jornalista mais votado na pesquisa.

Cofundador do diário "Página/12", hoje um panegírico do governo, Jorge Lanata, 51, atualmente colabora com os jornais "Perfil" e "Libre", com veículos estrangeiros e produz documentários _ele não tem nenhuma relação profissional com o Grupo Clarín, maior conglomerado de mídia do país e inimigo número um do governo.

No domingo, Lanata comentou o episódio em sua coluna no "Perfil". Alguns dos trechos ajudam a entender a loucura que se transformou a relação entre o governo argentino e a imprensa que não é partidária.

- "Um feito isolado não pode, necessariamente, ser confundido com uma política: em todos os lados há loucos soltos. Mas uma política pode sim estimular que um feito isolado se produza. Quando a presidente identifica ou persegue, com nome e apelido, aos jornalistas que ela imagina como inimigos, pode haver um, ou dez, ou cem militantes freaks dispostos a ficar bem com a chefe. Ninguém se lembra, por exemplo, de uma condenação do governo quando militantes das Mães da Praça de Maio cuspiram nos retratos de vários jornalistas do país, acusando-os de cumplicidade com a ditadura".

- "‘As vezes penso se não seria necessário nacionalizar os meios de comunicação, para que eles adquiram consciência nacional e defendam os interesses do país. Não sejamos tontos, não deixemos que nos envenenem e que nos mintam’, disse Cristina em um ato em Mercedes. ‘Os meios de comunicação são cúmplices da política de entrega e subordinação’, agregou a presidente. ‘A liberdade de expressão não pode se converter em liberdade de extorsão’, disse. Você não atiraria uma pedrinha em Lanata para agradar a Cristina e defender o povo?".

- "Enquanto o jornalismo for apresentado como um inimigo do povo, se jogará mais lenha na fogueira. É uma democracia que às vezes, infelizmente, parece uma ditadura: na noite anterior às pedras, o programa 678 fez outra goebbeliana reportagem sobre as colunas de Martín Caparrós em "El País" e um comentário meu sobre Cristina na Rede Ser: os classificaram de campanha anti-Argentina, do mesmo modo que a ditadura chamou as denúncias dos organismos de direitos humanos no exterior sobre os desaparecidos".

O governo argentino não se manifestou sobre o episódio.

PS - No mês passado a Folha publicou entrevista com Jorge Lanata em que ele fala sobre o segundo mandato de Cristina Kirchner e a relação do governo com a imprensa. Aqui, para assinantes.

 

 

Escrito por Lucas Ferraz às 11h40

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A volta de Joe, o Encanador

Joe, o Encanador, promete "consertar a política sem silvertape" (foto: AP)

WASHINGTON, por Luciana Coelho

Você se lembra de Joe, o encanador? O sujeito que teve 15 minutos de fama em 2008 ao dizer que o então candidato Barack Obama, se eleito, iria "distribuir riquezas"? Pois ele está de volta. E será candidato à Câmara.

O nome original do pequeno empresário da construção civil de Ohio é Samuel Joseph Wurzelbacher, mas ele é conhecido pelo apelido "Joe". Durante a campanha de 2008, Joe virou um personagem ao interpelar o então candidato democrata e questionar sua plataforma.

De lá para cá, ele declarou apoio ao então openente republicano de Obama, John McCain; escreveu um livro; trabalhou como comentarista e rádios e TVs; rompeu com McCain, acusando o senador de manipulá-lo politicamente; fez palestras motivacionais; rompeu com o Partido Republicano; fez comícios com o movimento ultraconservador Tea Party e voltou a se filiar ao Partido Republicano.

Nesta semana, ele se declarou candidato. Vai concorrer com dois democratas - o ex-candidato presidencial nanico Dennis Kucinich e com Marcy Kaptur. A cadeira vagou por conta do redesenho dos distritor eleitorais na região. E disse que, embora concorra como republicano, o partido "não representa" exatamente tudo que ele é.

"Vou concorrer porque sei como as coisas são. Eu sei como é viver salário a salário", afirmou, ao se dizer candidato, segundo o site Politico. "Viajando pelo país nesses três anos conheci muita gente que daria ótimos estadistas, mas infelizmente não são conhecidos, não conseguem levantar dinheiro."

A plataforma que tornou Joe famoso foi a intenção de Obama de acabar com as isenções tributárias para quem ganha mais de US$ 200 mil ao ano _hoje, a maior queda-de-braço entre republicanos e democratas e um dos pontos de impasse no pacote fiscal que a supercomissão do Congresso terá de apresentar no fim do mês que vem.

Sem surpresas, ele já declarou sua simpatia por Heman Cain, o pré-candidato catapultado ao topo das pesquisas de intenção de votos entre os republicanos graças a um controverso plano de impostos fixos, o 999 (9% de imposto de renda, 9% de imposto corporativo e 9% de um equivalente ao ICMS).

Escrito por Luciana Coelho às 17h36

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Elas fazem história

 
LUCAS FERRAZ
DE BUENOS AIRES

A arrasadora vitória de Cristina Kirchner _a presidente mais bem votada desde a redemocratização do país_ comprova que as mulheres são responsáveis por escrever a história recente da Argentina. E curiosamente todas elas foram casadas com presidentes argentinos.

Se não fosse Cristina, o kirchnerismo, movimento iniciado com a presidência de seu ex-marido Néstor Kirchner (1950-2010) em 2003, não teria se consolidado como força hegemônica do país, fazendo história ao iniciar o terceiro mandato consecutivo, com uma projeção de 12 anos de poder (quase absoluto, já que a oposição está completamente fragmentada), feito inédito para uma nação acostumada a processos políticos curtos que terminaram em golpes ou crises.

Da mesma forma que, sem Evita, não existiria o peronismo, essa força política que influencia a Argentina há mais de 60 anos e que se mistura à própria história do país. O peronismo foi um movimento político iniciado com o general Juan Domingo Perón nos anos 40, mas sua sobrevivência se deve a Evita, segunda mulher de Perón. Eva encarnou os ideias peronistas, tornando-se defensora dos pobres e trabalhadores devido suas ações de caridade e programas sociais.

Num livro recém publicado, "Eva Perón - Una biografia política", o historiador italiano Loris Zanatta, estudioso da Argentina, mostra como Evita, com sua "energia, entusiasmo, coragem e fanatismo", conseguiu criar o "poder ativo" do regime peronista, dando um sentido ao governo e mantendo o movimento vivo nas massas do país. Tanto que após a prematura morte de Eva por um câncer, aos 33 anos, em 1952, a primeira-dama passou a ser venerada, sobretudo por Perón.

A terceira mulher a fazer história na Argentina foi Isabelita Perón, a terceira mulher do general. Ex-dançarina de um cabaré panamenho, Isabelita tornou-se vice do marido em sua segunda eleição, em 1973, e assumiu a presidência após sua morte, no ano seguinte. Foi a primeira mulher a presidir a Argentina.

Chefe de um governo débil e violento, que apoiava a formação de grupos paramilitares que assassinavam esquerdistas, Isabelita, sem qualquer tipo de autonomia, acabou manipulada por militares. Em março de 1976 veio o golpe que a tirou do poder para instituir a ditadura mais sangrenta da história argentina, que deixaria um saldo de 30 mil mortos e desaparecidos e marcas profundas na sociedade.

Cristina, como ela fez questão de ressaltar ontem em discurso na festa da vitória, foi a primeira mulher eleita democraticamente _e a primeira, claro, a ser reeleita. Ela consolida um poder inédito na história do país, utilizando cada vez mais o legado do marido.

Ex-deputada e ex-senadora de destaque, Cristina construiu uma carreira política emancipada do marido, um desconhecido governador de uma província patagônica que virou presidente, em 2003, sem qualquer expressão nacional.

Mas desde a morte de Néstor, há um ano, Cristina tornou-se a "viúva", papel que encarnou sem pudor. O luto foi explorado por ela durante toda a campanha _ela continua se vestindo de preto, apesar de abusar da maquiagem, dos saltos e das saias rodadas.

Ontem, ao votar, ela disse: "Sou militante e presidente, mas acima de tudo sou mulher do homem que mudou a política".

 

Escrito por Lucas Ferraz às 13h22

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Estão todos loucos

LUCAS FERRAZ
DE BUENOS AIRES

Terminou nesta sexta-feira a campanha eleitoral argentina. Alguns nativos dizem que foi a campanha mais desanimada que se tem notícia. A oposição, completamente fragmentada, não encontrou rumo. A presidente Cristina Kirchner, candidata à reeleição, deverá ser eleita com votação recorde no domingo.

Pesquisa do Instituto Poliarquia, divulgada há duas semanas, mostrou que 70% dos argentinos estão desinteressados pela eleição; 95% acreditam que Cristina será reeleita; uns 48% acham que o país está melhor, e 52% aprovam o atual governo.

Esta última semana pelo menos teve um pouco de diversão, talvez por causa de dois spots eleitorais. No primeiro, narrado por Cristina, a presidente diz que para mudar o país não é necessário a vontade apenas de um louco (Néstor Kirchner, seu ex-marido e ex-presidente, falecido há um ano) e uma louca (no caso, ela), mas sim de 40 milhões de loucos, referindo-se à população da Argentina. (Na papelada divulgada pelo Wikileaks referente a Argentina, ano passado, diplomatas norte-americanos levantam a possibilidade de Cristina ser medicada por causa de um distúrbio bipolar.)

O outro spot, produzido pela Coalizão Cívica, um nanico partido da oposição, ironiza os "loucos k", transformando-os em uma família Adams da pesada. Entre os parentes e amigos dos Kirchner, ministros polêmicos (envolvidos em corrupção e práticas nefastas) e o aliado venezuelano Hugo Chávez. O spot também explora algumas contradições do kirchnerismo, como a antiga relação de Néstor com outro ex-presidente, Carlos Menem, sempre negada pelo primeiro.

 

 

Escrito por Lucas Ferraz às 12h22

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