DE MADRI Nesta sexta-feira começou aqui na Espanha a campanha para as eleições municipais e regionais, que acontecem em 15 dias. Noves fora denúncias de corrupção, campanha irregular, trocas de farpas e outras “tradições” da corrida eleitoral (também por aqui), a notícia que surpreendeu o país foi a autorização da justiça para um partido acusado de ser a representação do grupo terrorista basco ETA nas urnas concorrer. Ele se chama Bildu, surgiu no ano passado, já visando as próximas eleições. É, mais especificamente, uma coalizão de partidos que representam a esquerda radical do País Basco, chamada “izquierda abertzale”. Para o Partido Socialista Espanhol, o "novo ETA". Desde 2003, o grupo já criou nada menos que 11 siglas diferentes, uma estratégia para fugir da ilegalidade. É mais ou menos assim: a justiça joga o partido na ilegalidade, eles criam outro, que é novamente proibido, e assim sucessivamente há oito anos. É que o governo espanhol, que identifica conexões desses partidos com membros do ETA, sempre acaba conseguindo, na justiça, meios de proibi-los de concorrer nas eleições. Não desta vez. Em uma decisão surpreendente, o Tribunal Constitucional autorizou o partido Bildu a participar das eleições. Eles competirão, sobretudo, em prefeituras das regiões do País Basco e de Navarra, no norte da Espanha. Os juízes, que aprovaram o Bildu por seis votos a cinco, argumentaram que a proibição fere o princípio constitucional de liberdade política na Espanha. O mais polêmico da história é que a sentença contesta uma decisão de dois dias antes do Tribunal Supremo espanhol anulando todas as candidaturas vinculadas ao Bildu. No mesmo dia, o partido recorreu ao Tribunal Constitucional, que, depois de analisar o caso durante toda a quinta-feira, decidiu, de madrugada, autorizar a sigla a concorrer nas eleições. Nem adiantou um dossiê que a polícia entregou, de última hora, identificando a vinculação de candidatos do Bildu com o ETA, com supostas atas de reunião entre os dois grupos. O que se comenta por aqui é que o Tribunal Supremo, que tem sete juízes considerados progressistas, ante quatro conservadores, tende a ser favorável a causas da esquerda radical basca, identificada também com a luta separatista de sua região. O país em geral não digeriu a decisão, com exceção de Navarra e do País Basco, cuja capital Bilbao foi palco, na quinta-feira, de um protesto contra a proibição do Bildu e, na sexta-feira, de muitas comemorações.
A foto acima, retirada do site sina.com.cn, é da manhã desta sexta-feira. Mostra a entrada da loja oficial da Apple em Pequim no primeiro dia de venda do iPad 2 na China. iPads, aliás, produzidos em massa no sul da China pelas fábricas da Foxconn, fornecedora da Apple tristemente conhecida pelos salários baixos, pela alta carga de trabalho e, principalmente, pelos suicídios de 14 de seus funcionários, no ano passado.
Já as fotos abaixo de abaixo, do jornal estatal China Daily, foram tiradas no domingo passado na cidade de Zhenjiang, leste do país. Ali, uma imobiliária resolveu promover um condomínio jogando dinheiro pela janela _tarefa dada a jovens vestidas à moda grega. Foram arremessados 10 mil yuan (R$ 2.500) em notas de 50 e de 100. Muita gente se machucou.
Até o dia 28 de maio, David Lynch expõe suas novas criaturas numa galeria de Los Angeles.
Chamo de criaturas porque as obras parecem ter vida própria: esculturas com luzinhas ou pinturas em três dimensões, com bonecos esquisitos como os personagens de seus filmes.
A galeria se chama William Griffin e fica difícil de achar sem um GPS.
Pior, depois que se chega ao número 2902 da Nebraska Avenue, em Santa Mônica, não dá para entender nada. Não há placa de galeria, nem sinal da exposição. Apenas um galpãozão cinza, feioso. Tem que ter cara de pau e abrir a porta pouco convidativa.
As fotos abaixo tirei do celular.
Outro diretor que também passou por uma galeria de arte recentemente foi Gus Van Sant (“Paranoid Park”).
Mas a exposição na Gagosian Gallery, em Beverly Hills, já acabou.
Eram sete pinturas de jovens que ele achou na internet (!) e que lembram os personagens de seu filme “Garotos de Programa” (1991), cujos trechos descartados foram usados para um novo longa de cem minutos também exibido na mostra.
O diretor do novo trabalho é o ator James Franco, que diz ter ficado “maravilhado com a atuação desinibida” de River Phoenix, colega morto em 1993, aos 23 anos. Além de Phoenix, Keanu Reeves está no elenco do drama sobre garotos marginais em Portland.
A relação de alguns chineses com os animais muitas vezes costuma chocar a sensibilidade ocidental (e de outros chineses também). O caso mais recente é o dos chaveiros vivos à venda no metrô de Pequim.
Na estação Dawanglu, uma ambulante estava oferecendo, por 10 yuan (R$ 2,5), chaveiros atados a um bolsa plástica hermeticamente fechada com água e três opções: tartaruguinhas, peixes vermelhos e salamandras.
Perguntei à vendedora como dar comida aos bichinhos, já que a bolsa vem lacrada. Ela disse que é preciso romper o plástico. Ou seja, o chaveiro tem prazo de validade curto. Dura até acabar a comida ou o oxigênio ou por misericórdia de quem comprou.
É bom ressaltar que, durante o período de cinco minutos em que estivemos no local, quase todos os que passavam por lá viam a ideia com reprovação. E que a única compra foi feita por nós, numa tentativa quixotesca de salvar duas tartarugas. Mas a sensação não foi de alívio _talvez tenhamos incentivado o negócio. O vídeo está abaixo.
"Eu estou feliz que tenha sido possível matar Bin Laden". Desde segunda-feira, a frase dita pela chanceler Angela Merkel no fim da coletiva de imprensa convocada para comentar a operação americana no Paquistão é repetida à exaustão pela televisão alemã. Afinal, é adequado manifestar satisfação com a morte de alguém?
Muitos alemães acham que sim _ pelo menos quando a pessoa em questão é um terrorista responsável pela morte de milhares de civis. Em uma enquete feita pelo site da emissora N-TV, 57% dos votos computados até o fim da tarde desta quarta diziam que é permitido, sim, se alegrar com a morte de Bin Laden.
A frase de Merkel, porém, pegou mal para muita gente, inclusive dentro de seu próprio partido (não esqueçam que ela é da CDU, cuja sigla significa União Democrata-Cristã). Com a revelação de que Bin Laden não reagiu com arma de fogo à ação americana, a situação se complicou ainda mais.
Em declaração ao jornal "Passauer Neuen Presse", depois reproduzida por vários outros veículos, o presidente da comissão de Direito do Bundestag, Siegfried Kauder (CDU), afimou: "Eu não teria formulado a frase desse jeito. Isso expressa um sentimento de vingança que não deveria ser nutrido. Isso é a idade média".
À crítica do aliado somaram-se muitas outras, como a de Katrin Göring-Eckardt, do atualmente em alta partido Verde. "Como cristã eu só posso dizer que não é adequado festejar quando alguém é intencionalmente morto", afirmou ela ao "Berliner Zeitung". Diversos religiosos manifestaram-se de forma parecida.
Quem saiu em defesa de Merkel foi o ministro das Relações Exteriores, Guido Westerwelle. Ele afirmou que a morte de Bin Laden é "uma boa notícia para o mundo inteiro" e que é "compreensível que ela traga um sentimento de alívio".
O porta-voz de Merkel também tratou de tentar relativizar a declaração que deu início à polêmica. Segundo ele, a chanceler entende que a frase, retirada de contexto, pode parecer inadequada por juntar as palavras felicidade e morte. Para ele, porém, está claro que o motivo da alegria "foi o pensamento de que esse homem não representa mais perigo e de que o mundo possivelmente se tornou um pouco mais seguro".
Tornei-me próximo do dono de um mercadinho que fica ao lado de minha casa. Um dia, após lhe perguntar quanto devia por uma pequena compra, ele disse, risonho: "Um Diego". "Um Diego?", estranhei. "Sim, um Maradona. Dez pesos".
O que para mim deveria ser uma velha piada sobre futebol era um assunto aparentemente sério. Há um movimento na Argentina, que meu colega do mercadinho já adotou, para o Maradona ilustrar a nota de 10 pesos.
"Uma homenagem para que a de 10 leve a cara do 10", diz o slogan da campanha, que está se difundindo pela internet. No Facebook, o nome da comunidade é "Para que un Diego sea un Diego". A campanha também está sendo divulgada nas ruas.
Além de casar com o número sempre identificado com Maradona _o 10 que ele usou na seleção argentina e nos clubes que jogou_, o argumento da campanha faz troça com dois nomes ilustres da história do país: "Maradona fez mais [para a Argentina] que Mitre, assim que Belgrano vai de 2 e, de 10, Diego!".
Bartolomé Mitre, além de nomear uma movimentada rua de Buenos Aires, foi um militar que presidiu a Argentina entre 1862 e 1868. Seu rosto está na cédula de 2 pesos, a menor do país. Com a eventual mudança, ele seria riscado do mapa monetário.
Manuel Belgrano, que ilustra a nota de 10 pesos, seria impresso na de 2. Nome importante da Independência argentina, ele também batiza uma importante via da capital _coincidentemente, onde fica o mercadinho do meu colega.
Maradona, o maior nome da história do futebol argentino, é considerado o terceiro melhor jogador de todos os tempos _depois de Pelé e Garrincha. Ele ganhou praticamente sozinho a Copa de 1986, no México, quando a Argentina conquistou o segundo (e último) título mundial. Naquela edição, além do mais, o jogador marcou um gol antológico, talvez um dos mais bonitos do futebol.
Por agora, os organizadores da campanha "Para que un Diego sea un Diego" querem juntar o máximo possível de adeptos. Depois, devem apresentar ao governo argentino um pedido de alteração nas cédulas de 10 pesos.
Parcela influente da esquerda mais organizada que faz parte do chavismo está irritada com Hugo Chávez. Considera-se traída.
Julga que, em nome da relação com o seu “novo melhor amigo”, o colega colombiano Juan Manuel Santos, o presidente “traiu” o espírito bolivariano que une a revolução local com aos ideais das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
Aqui e ali já apareciam as queixas pela reaproximação entre Bogotá e Caracas, selada em agosto passado. Mas a crise ganhou as páginas dos jornais _inclusive os semiestatais venezuelanos_ com a prisão e extradição para a Colômbia, e em tempo recorde, de Joaquim Pérez Becerra, diretor da agência Anncol, que difunde mensagens das Farc.
Becerra foi preso no aeroporto de Caracas há dez dias _desembarcou vindo de Frankfurt.
Ocorre que Becerra é agora cidadão sueco _país onde se exilou nos anos 90 _, e não mais colombiano.E a Suécia reclamou da prisão seguida de extradição porque sequer foi consultada.
Os militantes chavistas também saíram a protestar. Na quinta passada fizeram um piquete diante da sede da Chancelaria, no centro de Caracas. Levavam cartazes com os rostos do ministro das Comunicações, Andrés Izarra, e do chanceler, Nicolás Maduro. Ambas fotografias acompanhadas da palavra “traidor”.
Após dias de silêncio sobre o tema, Chávez finalmente falou no fim de semana _no sábado e no domingo.
Estava irritado. Primeiro, acusou a Alemanha (onde Becerra fez escala) e, indiretamente, a própria Colômbia de deixá-lo com “batata quente” na mão: ou seja, obrigá-lo a se indispor com seus apoiadores simpatizantes das Farc e extraditar o suposto guerrilheiro.
Depois, acusou seus aliados de fabricar a “desculpa” para uma “agressão” imperialista porque, insensatementee “pelas costas”, haviam confabulado para o estabelecimento de bases das Farc em território venezuelano.
Tanto a extradição como as declarações marcam um ponto de inflexão das relações de Chávez com as Farc.Ele subiu ao poder em 1999, declarando neutralidade no conflito interno do vizinho. Em 2008, escolhido pelas Farc para mediar e garantir a liberação de sequestrados pela grupo, teve seu momento de maior aproximação com a guerrilha.
Os tempos de homenagem na TV pela morte do então número 2 das Farc, Raúl Reyes, como há três anos, ficaram para trás.
Já o governo Santos está satisfeito. O presidente colombiano disse em entrevista ao jornal “El Tiempo” que ele mesmo telefonou para Chávez pedindo a prisão de Becerra.
Dizia isso para provar à incisiva repórter que o venezuelano tinha palavra e que ele não estava sendo condescendente com Caracas _num exemplo de que o mal-estar com a nova amizade não acontece só na imprensa semiestatal chavista.
Poucas semanas antes, a Colômbia já havia feito um gesto importante ao governo Chávez.Bogotá confirmou que extraditaria à Venezuela _e não aos EUA_ o meganarcotraficante venezuelano Walid Makled.
Mackled foi detido em 2010 e desde então tem dito que militares de alta patente venezuelanos constavam de sua lista de pagamento mensal. Em troca, esse oficiais facilitariam o envio de droga ao exterior.
A decisão provocou críticas internas a Santos e até reparos de integrantes da bancada republicana dos EUA.
# Acordo para a volta de Zelaya
A nova aliança Bogotá-Caracas também trouxe outros frutos. Os dois governos fazem gestões para aproximar o atual presidente de Honduras, Profirio Lobo, e o presidente deposto em 2009, Manuel Zelaya.
Chávez, eloquente aliado de Zelaya e inimigo de Lobo, topou ser facilitador de um pacto para permitir que o ex-presidente, exilado na República Dominicana, volte a Tegucigalpa.
A volta de Zelaya é um dos requisitos exigidos pelo Brasil, por exemplo, para aceitar o retorno de Honduras para a OEA (Organização dos Estados Americanos).
Nesta segunda, a Justiça hondurenha declarou nulas as ações que acusavam Zelaya de corrupção e outro par de crimes comuns. Na prática, eram esses processos e ordens de captura derivados deles que o impediam de regressar.
A guinada para apoiar um acordo em Honduras também é criticada.
Heinz Dieterich, alemão radicado no México e autor do conceito de “Socialismo do Século 21”, é peremptório: diz que ambos os episódios representam “o fim da fase progresista do governo de Hugo Chávez e seu retorno à normalidad burguesa”.
O líder da Al Qaeda, cuja morte foi anunciada no fim deste domingo pela Casa Branca (Reuters)
CAMBRIDGE
Então Osama Bin Laden está morto, diz a inteligência americana. Os EUA dizem ter o corpo. Barack Obama , o presidente americano, acaba de falar em rede nacional com um mal contido sorriso no rosto. As TVs e jornais dos EUA definem o pronunciamento como histórico.
O que há para comemorar e quem pode reivindicar esse legado?
Pelo pouco que vazou de informação neste momento, Bin Laden foi morto em um ataque no Paquistão _nada inesperado, pois, já que se sabia que o líder de honra da Al Qaeda estava escondido havia anos na inóspita região fronteiriça com o Afeganistão.
Nos últimos anos, essa região se tornou o foco da preocupação americana, sobretudo o lado paquistanês _a ação de hoje, porém, ocorreu mais no interior do país, a cerca de 50 km da capital, Islamabad*.
A cruzada militar original foi lançada por George W. Bush, presidente de turno quando dos ataques do 11 de Setembro e patrocinador da Guerra ao Terror (seria mais justo dizer que os mentores são Dick Cheney e Donald Rumsfeld).
Barack Obama, porém, assumiu a Guerra no AfPak(Afeganistão + Paquistão) como sua prioridade maior, em lugar da controversa operação no Iraque que drenou recursos de George W. Bush.
Desde 11 de Setembro de 2001, quase dez anos atrás, os EUA queriam Bin Laden morto _como um símbolo do terrorismo islâmico muito mais do que como um chefe efetivo da principal rede terrorista atuante no planeta. Agora está feito.
E o que a morte de Bin Laden trará de diferente para o planeta?
Impossível dizer ainda.
O saudita, que montou a maior franquia de terrorismo que já atuou no planeta, há anos estava afastado das operações diárias de sua rede. Sua figura tem um inegável peso simbólico para aqueles que pregam a destruição dos EUA, mas seu poder efetivo é questionável.
Bin Laden sofria de problemas nos rins, e seus movimentos eram restritos pelo tratamento de hemodiálise.
O moral que o líder terrorista ainda tinha sobre seus seguidores, entretanto, ainda era alto _embora menor que nos anos imediatamente após a destruição das Torres Gêmeas , o maior atentado em solo americano em todos os tempos.
Há alguns anos seus pronunciamentos perderam o poder fantasmagórico e deixaram de assombrar a internet. Mas Bin Laden ainda é _ou era_ um ícone. Mais do que o poder do homem, vigora o poder da ideia que ele representa. Sua figura era o que amarrava a pulverizada rede da Al Qaeda, tal e qual uma marca forte numa franquia.
Nada representa o terrorismo islâmico anti-EUA melhor que Osama Bin Laden. Vide os gritos e hurras em comemoração à sua morte de populares amontoados diante da Casa Branca nesta noite.
Impossível que os americanos deixassem de contar sua morte _tantas vezes um alvo falho, tantas vezes um objetivo fugidio, tantas vezes perdido por pouco_ como um tento.
Mais do que a contenção de uma ameaça aos EUA, a morte de Bin Laden cai por essas bandas como um atestado de competência da combalida inteligência americana, tão na berlinda nos últimos anos.
O presidente democrata reivindicou para si a vitória, citando uma ordem dada por ele para conduzir a operação. Citou, também, a inteligência reunida sob a batuta de Leon Panetta, que deve ser seu secretário da Defesa dentro em breve.
Mas Obama citou também Bush e sua incansável busca pelo saudita, embora o republicanotenha relegado o Paquistão a segundo plano em sua estratégia.
As TVs , por sua vez, falam em “vitória americana” e “inequívoca mensagem da América de que a Justiça prevalece, não importa quanto tempo leve”.
Um “momento para celebração”, nas palavras do meu professor David Gergen, que trabalhou para quatro governos americanos e falou à CNN.
Se surgirão sucessores, ninguém ainda sabe _ao longo dos últimos anos, todas as figuras de destaque que emergiram em conexão com a Al Qaeda sucumbiram sob ataques americanos. Mas a rede ainda é ampla e resistente _a medida de sua força hoje, porém, está para ser vista agora.
Já Obama, certamente, contará com esses pontos em sua campanha para a reeleição. Pontos que, normalmente, costumam ser computados pelos republicanos.
* Corrigido/esclarecido após observação do leitor Luis Penteado
Como no Brasil, a oposição política da Argentina também anda completamente perdida. Só agora, a cinco meses da eleição presidencial, ela parece ter encontrado um candidato com um mínimo de consenso para enfrentar, possivelmente, a presidente Cristina Kirchner (ela ainda faz mistério se tentará se reeleger) no pleito de outubro.
O nome escolhido pela UCR (União Cívica Radical), o principal partido oposicionista, é o do deputado federal Ricardo Alfonsín. Apesar do sobrenome (é filho do ex-presidente Raúl Alfonsín), ele não é conhecido nacionalmente _ganhou um pouco de projeção após a morte do pai, em 2009.
A escolha do candidato da UCR seria acertada numa prévia interna, que aconteceria no mês passado. Mas por falta de consenso, ela não aconteceu. O senador Alberto Sanz, outro nome da disputa, se declinou das prévias quando viu que não poderia ganhar.
Um terceiro provável candidato da centenária UCR, o partido mais antigo da Argentina, seria o atual vice-presidente Julio Cobos, que também preside o Senado e é rompido com Cristina desde março de 2008. Desgastado, ele também abandonou a disputa. Sanz e Cobos, após muita querela, anunciaram que vão apoiar Ricardo Alfonsín.
Por fim, o principal opositor do governo, Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, também deve tirar da praça, nos próximos dias, sua pré-candidatura à Presidência. Ex-presidente do Boca Juniors, o maior e mais popular time de futebol da Argentina, Macri é relativamente conhecido no país, mas seu partido, o PRO (de centro-direita), não tem base política alguma fora da capital.
Apesar de ser, até aqui, o nome da oposição que melhor aparece nas pesquisas de intenção de voto, Macri não conseguiu aglutinar apoio político em torno de sua pré-candidatura. Deve optar pelo mais fácil, que é lançar-se à reeleição em Buenos Aires _mas como tudo na política, e como tudo na Argentina, o cenário pode mudar a qualquer momento.
Até o mês passado, faltando seis meses para a eleição, a Argentina tinha quase 15 pré-candidatos à Presidência. Agora, além de Ricardo Alfonsín, sobraram poucos, como Eduardo Duhalde (ex-presidente), Elisa Carrió (uma espécie de Heloísa Helena à direita) e Alberto Rodríguez Saá (governador da província de San Luis).
Horácio Verbitsky, um veterano e respeitado jornalista da Argentina, que apoia o atual governo e é um dos interlocutores da presidente Cristina Kirchner, me explicou assim a falta de rumo dos opositores: "A oposição perdeu o rumo após a morte de Néstor Kirchner. Havia uma ficção, em boa medida alimentada por machismo, de que quem mandava no governo da Cristina era o marido. Ele morreu e todos entraram em pânico. A morte de Néstor foi mais grave para a oposição do que para o governo".
O ex-presidente, morto aos 60 anos em outubro do ano passado após sofrer um infarto fulminante, provavelmente seria o candidato à sucessão da mulher. E pensando assim a oposição fez política nos últimos quatro anos. Esse foi o maior erro, segundo Verbitsky.
A ver como será o desenvolvimento da campanha política (principalmente a polarização entre Ricardo Alfonsín e a presidente, que mantêm relações amigáveis), mas talvez não seja tão ilógico um dito que se espalhou por Buenos Aires: para ser reeleita em outubro, Cristina Kirchner não precisa fazer outra coisa do que esperar a eleição sentada.
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