Pelo Mundo

Blog dos correspondentes da Folha

 

Estão todos loucos

LUCAS FERRAZ
DE BUENOS AIRES

Terminou nesta sexta-feira a campanha eleitoral argentina. Alguns nativos dizem que foi a campanha mais desanimada que se tem notícia. A oposição, completamente fragmentada, não encontrou rumo. A presidente Cristina Kirchner, candidata à reeleição, deverá ser eleita com votação recorde no domingo.

Pesquisa do Instituto Poliarquia, divulgada há duas semanas, mostrou que 70% dos argentinos estão desinteressados pela eleição; 95% acreditam que Cristina será reeleita; uns 48% acham que o país está melhor, e 52% aprovam o atual governo.

Esta última semana pelo menos teve um pouco de diversão, talvez por causa de dois spots eleitorais. No primeiro, narrado por Cristina, a presidente diz que para mudar o país não é necessário a vontade apenas de um louco (Néstor Kirchner, seu ex-marido e ex-presidente, falecido há um ano) e uma louca (no caso, ela), mas sim de 40 milhões de loucos, referindo-se à população da Argentina. (Na papelada divulgada pelo Wikileaks referente a Argentina, ano passado, diplomatas norte-americanos levantam a possibilidade de Cristina ser medicada por causa de um distúrbio bipolar.)

O outro spot, produzido pela Coalizão Cívica, um nanico partido da oposição, ironiza os "loucos k", transformando-os em uma família Adams da pesada. Entre os parentes e amigos dos Kirchner, ministros polêmicos (envolvidos em corrupção e práticas nefastas) e o aliado venezuelano Hugo Chávez. O spot também explora algumas contradições do kirchnerismo, como a antiga relação de Néstor com outro ex-presidente, Carlos Menem, sempre negada pelo primeiro.

 

 

Escrito por Lucas Ferraz às 12h22

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Lula, o ímã da esquerda europeia

LUISA BELCHIOR
DE MADRI


Foi um afago que só o tratamento que os líderes socialistas da Europa deram ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante sua visita a Madri, de onde ele foi embora nesta quinta-feira. Lula passou quatro dias aqui cumprindo uma agenda “padrão” de suas visitas à Europa: dar palestras e encontrar políticos.

Com o Brasil bem contado pelas bandas de cá, Lula incluidíssimo, o ex-presidente sempre sai aplaudido de pé de qualquer palestra que faz por aqui, não importa o público  --representantes da banca em Londres, empregados da Telefônica em Madri, políticos de um povoado no sul da Espanha.

Desta vez, porém, os ouvintes se comportaram como tietes de Lula. E entre os “fãs” estavam os candidatos socialistas à presidência da França, François Hollande, e da Espanha, Alfredo Pérez Rubalcaba, além do ex-premiês Gordon Brown, do Reino Unido, e Felipe González, da Espanha.

É que, com eleições à vista, os socialistas viram em Lula a companhia perfeita para uma foto, na esperança de lhes garantir mais votos.

Para o francês Hollande, grudar em Lula era uma maneira de mostrar ainda mais distanciamento do impopular conservadorismo de seu rival, o atual premiê Nicolas Sarkozy – de que, segundo pesquisas de opinião do país, ele ganhará nas próximas eleições.

Já para o espanhol Rubalcaba, candidato do atual premiê José Luis Rodríguez Zapatero, viu na foto com o brasileiro uma das últimas tentativas de mudar o vergonhoso “placar” que seu partido socialista ostenta contra o conservador Partido Popular. Pelas últimas pesquisas daqui, os populares ganham de lavada nas próximas eleições gerais, que acontecem em um mês e devem eleger seu líder, Mariano Rajoy.

Quem, aliás, mesmo longe do socialismo, conseguiu no último minuto uma reunião com Lula, que já havia se encontrado a sós com François Hollande, Alfredo Pérez Rubalcaba e o ex-premiê Felipe González.

E quando não estava em reunião, Lula era ciceroneado até dizer chega --o que ele fez, literalmente, ao fim de sua palestra, quando não conseguia andar pelo bolo de pessoas que se formou ao seu redor -- no encontro da Fundación Ideas para el Progreso, grupo progressista presidido por Zapatero.

No evento, em que participaram outro líderes e ex-lideres socialistas europeus como Antonio Seguro, de Portugal, Massimo D´Alema, da Itália, Victor Ponta, da Romênia, Alfred Gusenbauer, da Áustria, e Paul Rasmussen, presidente do Partido Socialista Europeu, todos aplaudiram, com brilho nos olhos, o discurso de Lula.

E olha que ele nem falou nada de novo. O modelo de suas palestras por aqui é quase sempre mesmo: critica os líderes do primeiro mundo e fala sobre como o Brasil deu um “balão” na crise estimulando o consumo e permitindo a elevação da renda dos mais pobres, o crescimento de classe média, etc.

A plateia, seja qual for, sai boquiaberta e num mimo só com o brasileiro. Da última vez em que esteve aqui em Madri, depois de um bate papo com funcionários brasileiros da Telefônica, teve até anti-petista que saiu de lá dizendo-se em dúvida se deveria ter votado em Lula.  

Os europeus não têm qualquer dúvida.  

 

Escrito por Luisa Belchior às 20h14

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Nova Previdência chinesa preocupa múltis brasileiras

 

 

FABIANO MAISONNAVE

DE PEQUIM

Preocupadas com um iminente aumento dos custos trabalhistas, as principais empresas brasileiras instaladas na China querem o o apoio do Itamaraty para minimizar o impacto da nova legislação local que obriga funcionários estrangeiros a contribuir para a Previdência do país.

A mudança entrou em vigor no último sábado e tem gerado preocupação e incertezas nas multinacionais aqui. Há cerca de 232 mil estrangeiros com visto de trabalho no país.

Até agora, o Ministério da Previdência Social não divulgou todas as regras para a contribuição de estrangeiros _não se sabe, por exemplo, se a contribuição será retroativa a julho, quando a lei foi aprovada.

Uma das poucas definições é de que o cálculo da contribuição será diferente para cada cidade a partir do salário médio da região. Como regra geral, os funcionários deverão recolher 11% dos seus salários, e as empresas, 37,3%.

A base de cálculo tem um teto máximo de três salários médios da região onde está o funcionário. Em Xangai, por exemplo, maior comunidade de “expatriados” da China, o valor abatido mensalmente será de R$ 350 para o funcionário e de R$ 1.214 para as empresas, segundo projeção do escritório de advocacia brasileiro Felsberg e Associados.

O governo chinês afirma que, com a nova lei, o trabalhador estrangeiro passa ter direito a aposentadoria, assistência médica, seguro contra desemprego e acidente de trabalho e outros benefícios, similar a um cidadão chinês.

O Foro Brasil-China, grupo informal que reúne cerca de 60 empresas, entre elas Vale e Embraer, argumenta que, na prática, os funcionários já pagam benefícios sociais no Brasil e, em geral, têm seguro médico com acesso a clínicas privadas.

 O Foro afirma também que o aumento do custo inviabilizará a permanência de pequenas empresas. Mais: para resgatar o fundo de pensão, serão necessários 15 anos de contribuição. Quase nenhum estrangeiro fica tanto tempo no país. 

Em carta ao embaixador brasileiro em Pequim, Clodoaldo Hugueney, o Foro pede que o Brasil busque um acordo para “evitar o recolhimento em duplicidade”. Menciona que a Coreia do Sul e a Alemanha já têm convênios bilaterais sobre o tema e que EUA e Japão estão em negociações com a China.

Procurada pela Folha, a embaixada afirmou que o pedido está em avaliação e que ainda não houve consulta a Brasília.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 04h45

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Ricardito dá seu recado

LUCAS FERRAZ
DE BUENOS AIRES

Carlos Drummond de Andrade tem um aforismo sobre eleição que faz pensar muito na Argentina que vota neste domingo: "Se a maioria do eleitor é fraca, a do eleito o é mais ainda". Vale para toda elite política, governo e principalmente a oposição.

Cristina Kirchner deverá ser reeleita com grande votação, entre 52% e 55% dos votos nacionais, segundo pesquisas, índice recorde nos últimos 60 anos. Ela deverá se tornar a terceira presidente mais bem votada da história argentina, perdendo somente para Hipólito Yrigoyen (eleito em 1916) e Juan Perón (em 1946).

A oposição, desgastada desde a crise de 2001 e reunida em torno de seis candidatos, deverá ficar 40 pontos percentuais atrás de Cristina. Entre os seis, a derrota talvez será mais pesada para Ricardo Alfonsín, o candidato da UCR (União Cívica Radical, partido centenário que ainda não se recuperou do desgaste da crise de 2001) e filho do ex-presidente Raúl Alfonsín.

Respeitado pelo kirchnerismo antes do pleito (Ricardo e Cristina chegaram a se fotografar juntos), o candidato apareceu no final do ano passado causando sensações. Usou a mesma cartilha da viúva Cristina e também explorou na campanha a imagem de um morto, em seu caso, o pai, falecido em 2009. Mas também não colou.

Deputado federal apagado, Ricardito, como é chamado, perdeu-se no caminho _na verdade, não o encontrou. Em vez do segundo lugar que todos esperavam, vai brigar e pode terminar na quarta ou quinta posição. Sem apresentar propostas claras, sem discurso e com nenhum carisma, ele não empolgou nem o seu próprio partido, que chega na última semana de campanha completamente rachado (o principal nome da oposição pós eleição deverá ser o socialista Hermes Binner, governador da província de Santa Fe, que as pesquisas apontam em segundo).

Um exemplo do que foi Ricardo Alfonsín nesta campanha é o seu último e incomum spot eleitoral, em que manda um recado para Cristina: admite que ela já ganhou, mas alerta que vai atuar na oposição para impedir uma presidente superpoderosa, que, inclusive, pode querer alterar a Constituição para instituir a reeleição indefinida.

 

Escrito por Lucas Ferraz às 10h15

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A indiferença abala a China

 

FABIANO MAISONNAVE

DE PEQUIM

 Uma criança de dois anos é atropelada por um furgão. O motorista foge. A menina agoniza numa poça de sangue. Três pessoas passam ao lado sem ajudá-la. Um caminhão a atropela de novo. Mais 15 pessoas não param. A criança é finalmente socorrida sete minutos depois pela catadora de lixo Chen Xianmei, 58.  A cena, registrada por uma câmera, está aqui (pense mil vezes antes de vê-la). Aconteceu em Foshan, na Província de Guangdong (sul), a região mais rica da China.

No fórum da Sina Weibo, o portal de microblogs mais popular do país, a pergunta é direta: “Por que 18 pessoas passaram de forma indiferente diante da menina? Onde está a consciência mais básica da sociedade?”.

 A catadora de lixo virou celebridade. Miúda, envergonhada, recusou três vezes um prêmio em dinheiro (R$ 5.500) até dizer que irá usá-lo para pagar a conta do hospital _não há sistema gratuito de saúde na China.

Nesta terça-feira, os familiares da criança se ajoelharam diante de Chen (a foto acima) em agradecimento.

A menina está internada em estado crítico. 

A polícia localizou e prendeu os dois motoristas.

A falta de ajuda em casos de acidente é um tema recorrente na China. Muitos atribuem a omissão a histórias conhecidas de pessoas que ajudaram idosos e depois foram acusadas de terem provocado o acidente. No caso mais famoso, em Nanjing (leste), um jovem ajudou uma idosa a levantar-se do chão. Dias mais tarde, ela o acusou de tê-la derrubado. Foi desmentida por um vídeo.

Mas o atropelamento de Foshan é diferente. Nos fóruns da internet, outra pergunta: uma menina de dois anos, a quem ela pode fazer algum mal?

Atualização: depois de uma semana internada, Wang Yue morreu nesta sexta-feira por "falência múltipla dos órgãos". E para quem acha que histórias desse tipo são exclusividade da China, recomendo a leitura do conto "Uma Vela para Dario", de Dalton Trevisan.

 

Escrito por Fabiano Maisonnave às 10h50

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