Pelo Mundo

Blog dos correspondentes da Folha

 

A volta de Joe, o Encanador

Joe, o Encanador, promete "consertar a política sem silvertape" (foto: AP)

WASHINGTON, por Luciana Coelho

Você se lembra de Joe, o encanador? O sujeito que teve 15 minutos de fama em 2008 ao dizer que o então candidato Barack Obama, se eleito, iria "distribuir riquezas"? Pois ele está de volta. E será candidato à Câmara.

O nome original do pequeno empresário da construção civil de Ohio é Samuel Joseph Wurzelbacher, mas ele é conhecido pelo apelido "Joe". Durante a campanha de 2008, Joe virou um personagem ao interpelar o então candidato democrata e questionar sua plataforma.

De lá para cá, ele declarou apoio ao então openente republicano de Obama, John McCain; escreveu um livro; trabalhou como comentarista e rádios e TVs; rompeu com McCain, acusando o senador de manipulá-lo politicamente; fez palestras motivacionais; rompeu com o Partido Republicano; fez comícios com o movimento ultraconservador Tea Party e voltou a se filiar ao Partido Republicano.

Nesta semana, ele se declarou candidato. Vai concorrer com dois democratas - o ex-candidato presidencial nanico Dennis Kucinich e com Marcy Kaptur. A cadeira vagou por conta do redesenho dos distritor eleitorais na região. E disse que, embora concorra como republicano, o partido "não representa" exatamente tudo que ele é.

"Vou concorrer porque sei como as coisas são. Eu sei como é viver salário a salário", afirmou, ao se dizer candidato, segundo o site Politico. "Viajando pelo país nesses três anos conheci muita gente que daria ótimos estadistas, mas infelizmente não são conhecidos, não conseguem levantar dinheiro."

A plataforma que tornou Joe famoso foi a intenção de Obama de acabar com as isenções tributárias para quem ganha mais de US$ 200 mil ao ano _hoje, a maior queda-de-braço entre republicanos e democratas e um dos pontos de impasse no pacote fiscal que a supercomissão do Congresso terá de apresentar no fim do mês que vem.

Sem surpresas, ele já declarou sua simpatia por Heman Cain, o pré-candidato catapultado ao topo das pesquisas de intenção de votos entre os republicanos graças a um controverso plano de impostos fixos, o 999 (9% de imposto de renda, 9% de imposto corporativo e 9% de um equivalente ao ICMS).

Escrito por Luciana Coelho às 17h36

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Quem ocupa Wall Street?

VERENA FORNETTI
de NOVA YORK

A Folha publicou hoje matéria que mostra o perfil dos manifestantes do "Ocupe Wall Street". São, na maioria, homens, jovens e empregados, embora muitos relatem subemprego e 38% tenham de 30 a 49 anos.

Ainda segundo o estudo, 32% dos entrevistados se identificam com o Partido Democrata e 33% não se sentem atraídos por nenhuma sigla política. Uma parcela de 35% disse que gostaria que o "Ocupe Wall Street" influenciasse o Partido Democrata assim como o Tea Party influencia o Partido Republicano.

O coordenador da pesquisa, o consultor Douglas Schoel, que por 30 anos prestou serviços aos democratas, escreveu artigo em que diz que o perfil dos ativistas está desconectado da média do eleitorado. No texto, Schoel ataca o movimento: "Nossa pesquisa mostra claramente que o movimento não representa os desempregados na América e não é ideologicamente diverso. Pelo contrário, compreende um segmento que acredita na redistribuição radical da riqueza e na desobediência civil".

Sobre a ambição de influenciar o partido democrata, à moda e ao avesso do Tea Party, o jornalista Aaron Rutkoff, do "Wall Street Journal", escreve que o "Ocupe Wall Street" quer energizar o populismo na esquerda.

Outros dois artigos publicados recentemente, na Folha e na "Foreign Affairs", são contrapontos. O primeiro é do colunista Vladimir Safatle, em que defende que os partidos não estão na vanguarda, mas a reboque dos processos, e o segundo, do professor Sidney Tarrow, que recusa a ideia do "Ocupe Wall Street" como Tea Party da esquerda.

Para quem se interessa pelo movimento, recomendo as leituras, todas linkadas acima.

Escrito por Verena Fornetti às 12h45

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Chávez e o aumento para militares

FLÁVIA MARREIRO, DE CARACAS

Hugo Chávez dividiu a quarta-feira entre o sagrado e o militar. Depois de loas ao "santo do povo" José Gregorio Hernández, um médico morto em 1919 considerado milagreiro, o presidente venezuelano, que trata um câncer, terminou o dia num longo encontro com o alto comando militar. Num auditório decorado para a ocasião, dividiu a mesa principal com generais e dois dos seus mais próximos e onipresentes colaboradores: o chanceler Nicolás Maduro (que também acumula uma vicepresidência administrativa) e o vice-presidente executivo Elias Jaua.

Ante aplausos efusivos no Forte Tiúna, o maior complexo militar de Caracas, Chávez anunciou aumento de 50% para para os salários de militares retroativo a setembro. O presidente anunciou também que militares das três forças não pagariam entrada em financiamentos para a compra de casas e carros.

A reunião, transmitida pela TV, foi, como sempre, recheada de referências às eleições de 2012. Chávez repetia que ganhará a disputa do ano que vem e acusava seus oponentes de "depreciar" os militares. "Que farão com os generais patriotas, socialistas, como vocês?"

O pacote de bondades para os militares e as insinuações contra a oposição _Chávez insinua há anos que, caso deixe o poder, haverá uma caça às bruxas nos quartéis_ desataram a reação da MUD (Mesa da Unidade), a coalizão dos opositores. Nesta quinta, o secretário-executivo do bloco, Ramón Guillermo Aveledo, acusou Chávez de abrir "uma brecha" entre civis e militares para tirar proveito político.

Aveledo disse que o aumento era um cala-boca, um afago aos militares insatisfeitos com o governo.

Num país com inflação que deve fechar o ano em pouco mais de 25%, deve-se descontar o efeito real do acréscimo de 50% anunciado. Ainda assim, soldados e oficiais obtiveram vantagem em relação ao aumento geral para o salário mínimo, que foi 25% escalonado entre maio e setembro. Funcionários públicos tiveram aumento de 45%.

Tenente-coronel reformado que estreou na vida nacional venezuelana com uma tentativa de golpe de Estado em 1992, o presidente diz que representa uma revolução "cívico-militar" e tem ex-militares entre aliados próximos.

No seu governo, os militares, tradicionalmente fortes na Venezuela, ampliaram sua influência em outras áreas da administração pública. Têm cargos de gerência de ministérios e direção de empresas públicas.

Os desfiles militares com o grito de guerra "pátria, socialismo ou morte", instaurado por esse governo, foi substituído por "viveremos e venceremos" _depois da doença de Chávez_ e também inspiram dúvidas sobre a reação castrense em caso de vitória opositora.

Mais que a lealdade escenificada nos desfiles, está em jogo status e acesso a negócios públicos ou ilegais, apontam analistas. Para dar um exemplo extremo, analistas do think tank Crisis Group, que preparam um informe sobre crime organizado na Venezuela, afirmaram que em sua pesquisa de campo surgiu diversas vezes o chamado "cartel dos sóis".

O sol é uma referência às insígnias dos uniformes de generais que, de acordo com esses entrevistados, controlariam parte do trânsito da droga vinda da Colômbia. Um punhado de altos militares está na lista Clinton, dos EUA, que compila nomes vinculados ao narcotráfico (ainda que feita a ressalva de que também há critério político de seleção).

O papel dos militares e a reação de grupos como as milícias ou alas mais duras do chavismo são fatores a observar no ano que vem, diz o centro de estudos. Eles fazem uma previsão não muito otimista: ganhe quem ganhar, há risco significativo de recrudescimento da violência.

Escrito por Flávia Marreiro às 22h18

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Elas fazem história

 
LUCAS FERRAZ
DE BUENOS AIRES

A arrasadora vitória de Cristina Kirchner _a presidente mais bem votada desde a redemocratização do país_ comprova que as mulheres são responsáveis por escrever a história recente da Argentina. E curiosamente todas elas foram casadas com presidentes argentinos.

Se não fosse Cristina, o kirchnerismo, movimento iniciado com a presidência de seu ex-marido Néstor Kirchner (1950-2010) em 2003, não teria se consolidado como força hegemônica do país, fazendo história ao iniciar o terceiro mandato consecutivo, com uma projeção de 12 anos de poder (quase absoluto, já que a oposição está completamente fragmentada), feito inédito para uma nação acostumada a processos políticos curtos que terminaram em golpes ou crises.

Da mesma forma que, sem Evita, não existiria o peronismo, essa força política que influencia a Argentina há mais de 60 anos e que se mistura à própria história do país. O peronismo foi um movimento político iniciado com o general Juan Domingo Perón nos anos 40, mas sua sobrevivência se deve a Evita, segunda mulher de Perón. Eva encarnou os ideias peronistas, tornando-se defensora dos pobres e trabalhadores devido suas ações de caridade e programas sociais.

Num livro recém publicado, "Eva Perón - Una biografia política", o historiador italiano Loris Zanatta, estudioso da Argentina, mostra como Evita, com sua "energia, entusiasmo, coragem e fanatismo", conseguiu criar o "poder ativo" do regime peronista, dando um sentido ao governo e mantendo o movimento vivo nas massas do país. Tanto que após a prematura morte de Eva por um câncer, aos 33 anos, em 1952, a primeira-dama passou a ser venerada, sobretudo por Perón.

A terceira mulher a fazer história na Argentina foi Isabelita Perón, a terceira mulher do general. Ex-dançarina de um cabaré panamenho, Isabelita tornou-se vice do marido em sua segunda eleição, em 1973, e assumiu a presidência após sua morte, no ano seguinte. Foi a primeira mulher a presidir a Argentina.

Chefe de um governo débil e violento, que apoiava a formação de grupos paramilitares que assassinavam esquerdistas, Isabelita, sem qualquer tipo de autonomia, acabou manipulada por militares. Em março de 1976 veio o golpe que a tirou do poder para instituir a ditadura mais sangrenta da história argentina, que deixaria um saldo de 30 mil mortos e desaparecidos e marcas profundas na sociedade.

Cristina, como ela fez questão de ressaltar ontem em discurso na festa da vitória, foi a primeira mulher eleita democraticamente _e a primeira, claro, a ser reeleita. Ela consolida um poder inédito na história do país, utilizando cada vez mais o legado do marido.

Ex-deputada e ex-senadora de destaque, Cristina construiu uma carreira política emancipada do marido, um desconhecido governador de uma província patagônica que virou presidente, em 2003, sem qualquer expressão nacional.

Mas desde a morte de Néstor, há um ano, Cristina tornou-se a "viúva", papel que encarnou sem pudor. O luto foi explorado por ela durante toda a campanha _ela continua se vestindo de preto, apesar de abusar da maquiagem, dos saltos e das saias rodadas.

Ontem, ao votar, ela disse: "Sou militante e presidente, mas acima de tudo sou mulher do homem que mudou a política".

 

Escrito por Lucas Ferraz às 13h22

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