Cain anuncia que está fora da disputa presidencial, mas não fora de cena (AP)

Luciana Coelho, de Washington

E lá se vai Herman Cain. Erros e problemas a parte, certamente o candidato mais vivo _e todos os sentidos para a palavra incluídos aqui_ desta corrida eleitoral americana.

Cain anunciou nesta tarde, em sua Atlanta natal, esposa ao lado, que estava suspendendo sua campanha. Suspendendo, neste caso, quer dizer encerrando. É que Cain disse que é um "lutador" (de fato), então em vez de tentar mudar Washington a partir de dentro, vai tentar fazê-lo a partir de fora. "Vai ser mais difícil, demora mais, mas vamos conseguir". "O Plano A era concorrer à Presidência. A partir de hoje lanço o Plano B", disse ele, prometendo continuar gritando por aí seu Plano 999 de alíquota tributária única de 9% para negócios, consumo e indivíduos.

Tenho minhas reservas em relação a Cain. Em alguns momentos, ele parecia juntar meio que tudo que há de pior nos últimos presidentes americanos: a inexperiência e falta de tato de Obama, o radicalismo simplista/sem estofo e falta de tato de Bush, o escárnio pelas convenções e instituições do Clinton (nesse o tato até sobrava). Tudo com alguns decibeis teapártycos a mais e muito populismo.

Mas não dá para negar que o sujeito injetou algum ânimo em uma corrida eleitoral antes soporífera.

Tive a chance de ver todos os republicanos _exceto o Jon Huntsman_ discursarem aqui em Washington, na cúpula dos eleitores moralistas (sim, este é o nome, Value Voters Summit). A reação da plateia a Cain era muito, mas muito mais empolgada do que a qualquer um de seus rivais. E a disparada de Cain em agosto e setembro, que o levou de quase traço à liderança nas pesquisas entre os candidatos republicanos, só pode ser creditada a ele mesmo (e a um certo desespero dos eleitores mais conservadores diante de Mitt Romney, vá lá). Não ao dinheiro. Não aos marqueteiros. Não ao establishment. Não a uma popularidade prévia ou a um currículo político extenso. Tudo isso, no caso de Cain, era nulo há quatro meses. O que ele tinha era gogó e carisma.

Exemplos? O discurso dele para anunciar o fim da campanha foi brilhante, do ponto de vista retórico. Foi, certamente, um dos melhores momentos de Cain na campanha. Com a mulher, Gloria, ao lado, disse estar em paz com ela, com Deus e consigo. Criticou o descaso da mídia para com sua candidatura. Criticou o repeteco, em looping, das acusações de que ele teria assediado sexualmente funcionárias suas quando dirigia a Associação de Restaurantes dos EUA e de que teria tido um caso de 13 anos com uma mulher de Atlanta. E disse que elas machucam. E disse que é um absurdo que isso receba mais atenção do que suas propostas de governo.

Ok, as propostas do candidato não são mesmo grandes coisas. Mas ele tem um ponto válido, não? [Parênteses: que país é este onde uma campanha aguenta o tranco de sucessivas acusações de assédio _crime, se comprovadas_ mas não uma de adultério, problema particular entre Cain, sua senhora e a suposta amante?]

Com o discurso, Cain sai por cima, até onde dava. Aliás, sai não -- ele promete ficar em cena. Montou um site, o Cain Solutions (ainda não entrou no ar, já testei), e disse que continuará pleiteando coisas como a reforma tributária, a independência energética e (ouch) a política externa da paz pela força.

O timing foi bom. O ex-candidato, ex-empresário, ex-radialista, nunca político, saiu no momento certo. As acusações já estavam lhe tomando pontos nas pesquisas e dólares na corrida pelo financiamento. Mas, como ele mesmo diz, seu nome hoje é conhecido, provavelmente, por 99,9% da população. Ele ainda aparece em terceiro nas enquetes. E o carisma não acabou. Seu apoio, que ele prometeu dar em breve para algum dos republicanos, vale muito _especialmente entre o eleitorado conservador.

Michele Bachmann foi a primeira a soltar um comunicado, logo após o anúncio, elogiando Cain e sua contribuição à corrida eleitoral. Ideologicamente, Bachmann é a mais próxima para conquistar seu apoio. Mas justamente porque a base eleitoral dos dois é semelhante, e porque a candidatura de Bachmann é levada ainda menos a sério do que era a de Cain, uma aliança entre os dois não mexeria muito na disputa.

Se o escolhido de Cain for Newt Gingrich, porém, a história muda. Afinal, o que falta a Gingrich, o favorito republicano da vez, é o trunfo de Cain: carisma e o fato de ser um "outsider" em Washington. Com uma chapa dos dois, Mitt Romney pode ter problemas. E Barack Obama, aliás, também.