Pelo Mundo

Blog dos correspondentes da Folha

 

Oriente Médio

A irrelevância do poder americano

Marcelo Ninio/Folhapress

Está na cara: opositor líbio em Benghazi

MARCELO NINIO, DE JERUSALÉM - De todo o longo discurso do presidente Obama sobre o Oriente Médio, talvez nada tenha falado mais alto aos corações e mentes do público árabe do que a frase que expressou a humildade da superpotência.

"Não foi a América que colocou pessoas nas ruas de Túnis e Cairo. Foram as próprias pessoas que lançaram estes movimentos e são elas que devem determinar seu desenlace", disse Obama, lá pelo meio do discurso.

Certíssimo, senhor presidente. Pergunte a um opositor tunisiano ou egípcio e ele provavelmente irá bem mais longe: as revoluções ocorreram não graças à política americana para a região, mas apesar dela.

Obama acordou tarde para a revolução na Tunísia e depois tentou se recuperar do atraso defendendo a renúncia do ditador egípcio Hosni Mubarak.

Muitos no Egito, porém, acham que no fundo os EUA continuam do mesmo lado que antes. Afinal, mantem a ajuda anual de quase US$ 2 bilhões ao país, grande parte destinada ao Exército, enquanto a junta militar que assumiu poder reprime protestos e submete manifestantes a cortes marciais.

Obama aproveitou o empurrão recebido pela morte de Osama bin Laden para mostrar que os EUA estão do lado certo da história. Mas o discurso pareceu muito mais voltado para o público interno que para o mundo árabe.

A enorme desconfiança dos árabes em relação às intenções americanas deriva em grande parte da percepção de que a defesa da democracia não é um princípio dos EUA, como pregou Obama em seu discurso, mas um instrumento seletivo a serviço de interesses estratégicos.

Não fosse assim, como explicar a ausência na fala do presidente da Arábia Saudita, um dos países mais repressores do mundo? Ou mesmo a débil advertência ao ditador Bashar Assad, da Síria, onde a repressão do Estado aos protestos já deixou mais de 800 mortos?

Na falta de novidades, em um discurso que pareceu uma versão requentada da política de democratização do Oriente Médio do presidente George W. Bush, o destaque acabou ficando para a defesa de Obama de um Estado palestino nas linhas de 1967.

Novidade? Nenhuma, a não ser o fato de pela primeira vez um presidente americano ter mencionado explicitamente o ano em que venceu a Guerra dos Seis Dias e ocupou a faixa de Gaza e a Cisjordânia, onde os palestinos pretendem fundar o seu Estado.

Mas é um exagero considerar o discurso de Obama um marco histórico por conter um gesto meramente simbólico. Se algum dia houver um Estado palestino, ele será nas linhas de 1967, não há como escapar disso.

A fórmula apresentada por Obama, de trocas territoriais que permitam a Israel manter em seu território os grandes blocos de assentamentos na Cisjordânia, circula há anos nas negociações.

A espinha dorsal de um possível acordo não é nenhum mistério: um Estado palestino nas dimensões do território ocupado por Israel, não necessariamente nas linhas de 1967.

Obama pode repetir fórmulas antigas como se fossem novas, mas isso não apaga o simples fato de que os EUA não tem como forçar israelenses e palestinos a fechar um acordo. No máximo, podem facilitar as negociações e oferecer garantias em torno de um futuro acordo.

O presidente americano tentou reconstruir a relevância dos EUA no Oriente Médio. Mas seu discurso serviu para lembrar que nenhuma região ressalta com mais clareza as limitações da superpotência do que o Oriente Médio.

Escrito por Pelo Mundo às 15h28

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Ativista pró-palestino: profissão de risco

JERUSALÉM

Conheci o italiano Vittorio Arrigoni no finzinho do ano passado, quando estive na faixa de Gaza para preparar uma reportagem sobre a situação no território palestino, dois anos depois da ofensiva militar israelense (http://www1.folha.uol.com.br/mundo/853740-faixa-de-gaza-vive-processo-de-talebanizacao.shtml).

 

Um amigo em comum fez o contato e nos encontramos no charmoso Hotel Deira, tradicional ponto de encontro de jornalistas, políticos e ativistas de frente para o mar Mediterrâneo.

Entre copos de chá e baforadas em seu cachimbo, Vittorio contou com agitação tipicamente italiana como conseguiu chegar a Gaza em agosto de 2009, a bordo de um barco cheio de ativistas do movimento Free Gaza.

Eram do mesmo movimento, aliás, os barcos que tentaram repetir a ação nove meses depois e foram interceptados por Israel. Na operação, nove ativistas turcos foram mortos, criando uma onda mundial de condenação contra Israel.

Com os braços cobertos de tatuagens, boné retrô na cabeça e facilidade para fazer amigos, Vittorio se tornou uma figura popular no empobrecido território. Mas na conservadora sociedade de Gaza, muitos também olhavam o barulhento italiano com desconfiança.

Sentado à beira-mar, Vittorio falou sem parar por mais de duas horas dos "crimes" de Israel. Era apaixonado pela causa palestina e não admitia concessões.

Para provar que não media esforços, mostrou-me vários vídeos em que ele e outros membros do grupo International Solidarity Movement serviam de escudos humanos para pescadores e agricultores que desafiavam os limites impostos por Israel.

Quando perguntei sobre as queixas de moradores sobre o processo de "talebanização" que estava ocorrendo em Gaza, com a imposição cada vez mais rígida de leis e costumes islâmicos, Vittorio se irritou.

"Você está se desviando do problema principal, que é a ocupação israelense", disse. E voltou a mostrar vídeos de soldados atirando contra camponeses e pescadores.

Vittorio foi encontrado morto na madrugada de hoje, numa casa abandonada de Gaza. Tinha 36 anos. Em seu corpo, sinais de estrangulamento e tortura.

Tudo indica que os assassinos fazem parte do grupo salafista, supostamente ligado à Al Qaeda, que na véspera divulgara um vídeo de Vittorio amarrado e vendado, com sangue em torno de um dos olhos.

Foi o segundo assassinato de um ativista pró-palestino em duas semanas. No começo do mês, o ator Juliano Mer-Khamis, filho de mãe judia e pai palestino, foi fuzilado quando deixava o teatro que fundou no campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia.

Ambas as execuções são exemplos brutais do confronto interno entre forças conservadores na sociedade palestina. A execução de Vittorio é uma forma de pressão para que o Hamas, grupo extremista que controla a faixa de Gaza, se torne mais extremista.

Nesse ambiente de repressão, um estrangeiro com ideias e hábitos liberais, por mais que esteja a serviço da causa palestina, pode virar alvo de fanáticos islâmicos.

No vídeo em que Vittorio aparece sequestrado, o grupo salafista decreta: "O refém italiano entrou em nosso território apenas para propagar a corrupção".

Mesmo sem ver na "talebanização" o maior problema de Gaza, Vittorio admitia que havia um processo de radicalização em curso. "O Hamas virou o lado moderado", ironizou o italiano em nossa conversa, dando mais uma de suas sonoras gargalhadas.

No último post de seu blog, um dia antes de ser sequestrado, o italiano encerrou o relato sobre um bombardeio israelense com a frase que usava como um mantra: "Restiamo Umani" (continuamos humanos).

No fim, o mantra não foi suficiente para proteger Vittorio da desumanização de Gaza.

Escrito por Marcelo Ninio às 17h55

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A poeira do Cairo

Cairo, 2006

CAMBRIDGE

Peço licença geográfica ao leitor para dividir uma memória do Egito, onde estive em 2006. Já que o blog retrata as andanças de nós, repórteres, pelo mundo, parece que elas cabem aqui nesse momento em que o país submerge em um turbilhão revolucionário cujo rumo ainda é invisível atrás da poeira que cobre o Cairo.

Pois é uma capital caótica, barulhenta, suja, coberta em uma perpétua neve de poluição e areia. Mas o constante burburinho a fazem uma das cidades mais impressionantes e interessantes que já visitei.

Tudo ali se mistura. A elite culta (hoje menos ‘ocidentalizada’ do que no passado) em suas roupas discretas, mas modernas,  quase sumida na massa maior de camponeses emigrados para a cidade, com suas mulheres de véu da cabeça aos pés.

Os restaurantes finos do bairro das embaixadas e os bares de expatriados com sua musica eletrônica perdendo em animação para os cabarés clandestinos e os restaurantes de kebab e falafel baratos, embora os primeiros contem com álcool e os últimos não. As casas de chá onde mulheres não recebem um olhar dos garçons,  mas são observadas de esgueira pelos demais freqüentadores. Muito açúcar. Muito cigarro.

Nas ruas, em meio à poluição visual, sobressaem os cartazes com o rosto de Hosni Mubarak _como eu suponho que seja em toda ditadura de cunho personalista, embora minha experiência com ditaduras se limite ao Egito e a Cuba.

São muitos. Estão em todo lugar e são especialmente ostensivos nas imediações do imenso palácio presidencial, um gigantesco bunker diante do qual o trânsito é desviado para uma passagem subterrânea (na época achei esta uma imagem muito expressiva). Mas passam batido pelos moradores,  sem nenhuma reverência.

O Egito também tem uma blogosfera ativa – alguns desses blogueiros eu acompanhei, e um deles me deu uma excelente entrevista no auge da crise dos cartoons dinamarqueses. E uma imprensa viva, apesar da censura (como mostra a revista Economist aqui).

Sua literatura recente nos deu os textos vibrantes de Naguib Mahfouz, contemplado com um Nobel e cuja Trilogia do Cairo eu recomendo a qualquer um que queira entender melhor a complexidade do pais. Seu cinema, além de fornecer filmes para a região como a Globo fornece novelas na America Latina, produziu o intenso e caótico Edifício Yacoubian (inspirado em um livro homônimo, que eu também recomendo).

E sua política recente _porque em um país com 4.000 anos de história se há de chamar o último século de recente_ produziu o pan-arabista Gamal Abdel Nasser e também a Irmandade Muçulmana, um dos modelos primeiros de grupos com ideais pan-islâmicos ou pan-árabes.

Sufocada por Mubarak, a Irmandade ainda tem poder, mas há dúvidas de que seja um governo encabeçado por ela que os egípcios queiram/precisem neste momento.

O que a gente assiste pela TV, hoje, é o colapso de todos esses mundos, que já se trombavam diariamente e sem alarido nas ruas sujas e cheias do Cairo. Nas vielas do bairro copta. Nas cercanias da Universidade Americana do Cairo. Na saída da mesquita de Al-Azhar e sua madrassa. Nas casas de chá. Nos bazares. Nos museus e bibliotecas.

Tanta efervecência, e um pais estranhamente sem voz. Mesmo na bonita Alexandria, mais moderna e mais desinibida, como toda cidade litorânea é. Tanto orgulho nacional (quem visitou o pais ou a Grécia, e suponho que o Irã e o Iraque também sejam assim, sabe o orgulho que os descendentes das civilizações mais antigas ostenta) e um pais estranhamente sem voz.

Agora isso acabou. 

É especialmente impressionante a quantidade de gente jovem, majoritariamente educada, querendo fazer, acontecer _ contrastes dos quais minha colega e ex-editora Claudia Antunes explicou brilhantemente aqui.

E não ache que eles querem ser mais ocidentais não – aliás, para mim a única coisa que ficou clara é que eles querem mais oportunidades e opções, querem romper o ciclo.

Uma jovem tradutora, de jeans e um casaquinho de manga longa que a fariam passar despercebida em qualquer cidade ocidental, cabelos longos soltos, contou-me que a irmã, de 13 anos, havia decidido usar véu porque as amigas usavam.

Os pais estavam bem com a decisão de ambas. Já os vizinhos chegaram a jogar garrafas de plástico, latas e até pedras na mais velha, um dia que ela caminhava sozinha.

Escrito por Luciana Coelho às 06h04

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A arte de um brasileiro entre o islã e o Ocidente

 
 

A arte de um brasileiro entre o Islã e o Ocidente

 

JERUSALÉM

Foi lançada hoje a primeira de uma série de revistas em quadrinhos que promove um inédito encontro de civilizações.

Os personagens do gibi "The 99", que virou febre no mundo muçulmano com super-heróis inspirados no islã, unem forças com a Liga da Justiça da América, formada pelo Super Homem, Batman, Mulher Maravilha e outros heróis famosos da norte-americana DC Comics.

A estréia da série marca o surgimento de um personagem do "The 99" nascido na Amazônia, Hafez, mas esta não é a única conexão brasileira. Todas as capas são de autoria do artista paulista Felipe Massafera, de apenas 25 anos (abaixo, a primeira).

Em conversa com o blog, Massafera descreveu sua estranheza inicial, e a posterior conversão ao projeto.

"Assim que recebi a proposta de fazer as capas eu pensei logo de cara: super-heróis do islã?
Nunca tinha ouvido falar deles e imediatamente me recordei de episódios recentes envolvendo Alá e cartunistas. Pensei comigo mesmo, será que vão me fazer desenhar Alá e vou me tornar alvo de extremistas?", contou o artista.

"É um terreno meio delicado de se pisar, sem sombra de dúvidas. Mas depois de pesquisar sobre o grupo vi que este meu preconceito não tinha nada a ver. A proposta dos 99 é muito boa e o gibi tem ótimos personagens", prossegue Massafera, que não poupou elogios ao psicólogo kuawitiano Naif Al-Mutawa, criador da série.

"Definitivamente a idéia de Naif é muito interessante e esta união com os maiores heróis dos quadrinhos americanos tem tudo para dar bons frutos. É muito importante ter a mente aberta e conhecer e respeitar outras culturas. E o primeiro passo pode ser dado através de uma descompromissada HQ."

 

 

 

Escrito por Marcelo Ninio às 18h57

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Obama em baixa (também) no Oriente Médio

JERUSALÉM

Não foi só em casa que as pesquisas de opinião deram um presente de aniversário amargo ao presidente americano, que completou 49 anos nesta semana. No Oriente Médio a popularidade de Barack Hussein Obama desce numa ladeira ainda mais íngreme.

Se há pouco mais de uma ano Obama causou sensação ao prometer um novo começo nas relações entre os EUA e o mundo muçulmano, num discurso histórico na Universidade do Cairo, hoje o descrédito é evidente.

Os números comprovam isso, como indicou ontem a pesquisa de opinião anual do mundo árabe feita pelo Brookings Institution, de Washington. Foram entrevistadas 3.976 pessoas no Egito, na Arábia Saudita, no Marrocos, na Jordânia, no Líbano e nos Emirados Árabes Unidos entre junho e julho. 

O que mais surpreendeu os pesquisadores foi o desgaste na imagem de Obama: no início de seu governo, entre abril e maio de 2009, 51% dos entrevistados nos seis países expressavam otimismo em relação à política americana no Oriente Médio. Na pesquisa de 2010, somente 16% se disseram otimistas.

Outra mudança dramática revelada pela pesquisa é sobre o programa nuclear iraniano. Em 2009, apenas 29% dos entrevistados responderam que a aquisição de armas nucleares pelo Irã seria algo positivo para o Oriente Médio. Na pesquisa de 2010, essa proporção inchou para 57%.

Segundo o especialista Shibley Telhami, que coordenou a pesquisa, o motivo principal da decepção entre os árabes é a falta de avanço na aspiração dos palestinos de ter um Estado independente. A maioria dos árabes vê o presidente Obama como favorável a Israel.

Mas a situação não é melhor para Obama em Israel, onde pesquisas indicam até 60% de reprovação ao presidente. Ao lado de motivos objetivos, como a pressão americana sobre Israel, há o preconceito. Muitos israelenses não se convencem de que um presidente de nome Hussein e origem muçulmana pode ser bom para o Estado judeu.

Não faltam preconceitos também do outro lado: entre os árabes, é comum a percepção de que o lobby judaico é quem dita as regras no governo americano. Apesar do nome Hussein.

Escrito por Marcelo Ninio às 14h33

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Iraque: EUA saem, Brasil volta

JERUSALÉM

 

Enquanto os EUA preparam sua retirada militar do Iraque, como indicou ontem o presidente Obama, o Brasil prepara seu retorno diplomático ao país.

Depois de muitas promessas e adiamentos, a embaixada do Brasil no Iraque deve finalmente ser reaberta em outubro. Embora o Itamaraty tenha nomeado um embaixador para o posto em 2006, o experiente diplomata Bernardo de Azevedo Brito, a representação está até hoje instalada em Amã, na Jordânia, devido às precárias condições de segurança em Bagdá.

Mas com o governo Lula chegando ao fim, o chanceler Celso Amorim determinou que a embaixada seja reativada impreterivelmente até o fim do ano.

A decisão tem um ângulo estratégico, já que o Brasil não quer ficar atrás dos cerca de 50 países que já reabriram embaixadas no país. Há também um claro interesse econômico num país que nos anos 80, tempos de Saddam Hussein, era o maior parceiro comercial do Brasil no Oriente Médio.      

Em 1985 o fluxo de comércio entre os dois países chegou a US$ 2,5 bilhões. Caiu drasticamente após a primeira Guerra do Golfo (1991), quando o Brasil fechou sua embaixada no país, e no ano passado já atingiu US$ 1,4 bilhão, segundo a Câmara de Comércio Brasil-Iraque (gráfico abaixo).

A redução radical no número de tropas dos EUA prometida por Obama a partir de setembro não deve ter impacto direto sobre a reabertura da embaixada brasileira, estimam diplomatas, pois a área onde fica a representação já não é guardada por um destacamento do Exército americano.

No fim de agosto militares brasileiros farão uma vistoria da embaixada, cujas obras de renovação estão em fase final, para estabelecer um plano de segurança.  Num sinal de que os riscos são consideráveis, o embaixador Brito deve se mudar sozinho, sem a família. 

Comércio Bilateral Brasil-Iraque/exportações totais + importações totais


Escrito por Marcelo Ninio às 08h06

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Serra, Dilma e a bomba

JERUSALÉM
 
Entrou hoje em vigor o tratado internacional contra a produção, o uso e o estoque de bombas de dispersão, uma arma terrível contra populações civis.

Considerada um dos mais importantes avanços no direito internacional humanitário na última década, a Convenção sobre Munições Cluster (termo em inglês do artefato) foi assinada até agora por 108 países, com 38 ratificações. O Brasil, por motivos militares, políticos e comerciais, alguns obscuros, não está entre eles.

Ao ser lançada, uma bomba de dispersão desfaz-se em milhares de artefatos menores, que se espalham por uma área imensa. Muitos explodem bem depois do conflito, atingindo quase sempre civis. 

O argumento do Brasil para ficar fora do tratado é que ele é discriminatório, pois deixa uma brecha para um tipo de munição de dispersão que só países desenvolvidos têm capacidade de produzir. Outro motivo é militar: as Forças armadas brasileiras consideram que as bombas são um importante fator de dissuasão. Mas há também uma justificativa comercial, já que o Brasil é um dos países que produzem o artefato.

Estados Unidos, China, Rússia e Israel, que produzem e tem grandes estoques de munições cluster, também não assinaram o tratado.

Entre os mortos e mutilados quase sempre estão crianças, que manipulam o artefato pensando que são pequenos brinquedos. É o caso da menina libanesa Zahra Hussein Soufan, 12 (foto), que perdeu a mão direita ao pegar uma das milhares de bombas de dispersão lançadas pelo Exército israelense durante a guerra de 2006. 

O acordo que o Brasil se nega a assinar por ser discriminatório busca proteger crianças como Zahra de uma munição que não discrimina entre militares e civis.  Sua entrada em vigor é uma boa oportunidade para introduzir o tema no debate da campanha presidencial: Serra e Dilma, contra ou a favor? 

Zaha Soufan, ferida por uma bomba de dispersão no sul do Líbano (Foto: Alison Locke/The Cluster Munition Coalition) 

 

Escrito por Marcelo Ninio às 08h47

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E se Sakineh Ashtiani fosse brasileira?

JERUSALÉM

Quatro brasileiros que cumpriam longas penas de prisão na Síria por tráfico de drogas foram libertados  por decisão do presidente do país, Bashar Assad.

Segundo o governo brasileiro, o perdão foi concedido em atendimento a um pedido feito pelo presidente Lula quando Assad esteve em visita oficial a Brasília, no início do mês.

Os quatro condenados, dois homens e duas mulheres, já estão no Brasil. O Itamaraty não revelou suas identidades nem para onde eles foram.

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que esteve reunido na quarta-feira com Assad em Damasco, disse que a clemência foi um gesto humanitário, sobretudo porque uma das mulheres tem um problema sério de saúde.

Todos foram condenados a penas longas, em torno de 20 anos, e já haviam cumprido boa parte delas, entre seis e oito anos.

Eles foram libertados poucos dias depois do pedido feito por Lula, informou o Itamaraty.

A notícia exclusiva está na versão impressa de hoje da Folha, junto ao relato sobre a recusa do presidente Lula em interceder a favor da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada a morte por apedrejamento por suposto adultério.

Fica a dúvida: e se Sakineh fosse brasileira, Lula ligaria para o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, para tentar salvá-la do terrível castigo?

E se Sakineh fosse de qualquer outra nacionalidade, que não iraniana?

Em maio, após a visita do presidente Lula a Teerã, o ministro Amorim disse que o Brasil desempenhara papel "fundamental" na libertação da professora francesa Clotilde Reiss, presa dez meses antes, acusada de espionagem. 

Na época, Amorim defendeu a diplomacia de resultados e disse que em temas de direitos humanos, "é melhor agir de forma silenciosa do que estridente". Será que no caso de Sakineh o que parece omissão é, na verdade, discrição? O tempo dirá.

Assista ao vídeo da campanha brasileira em defesa de Sakineh Ashtiani:

Escrito por Marcelo Ninio às 03h51

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Amorim na Terra Santa: 9 a 2

 
 

Amorim na Terra Santa: 9 a 2

JERUSALÉM

O chanceler Celso Amorim embarcou agora há pouco no aeroporto de Tel Aviv rumo a Damasco, capital da Síria. Foram pouco menos de 48 horas em Israel e nos territórios palestinos, onde o ministro viveu uma verdadeira maratona de conversas com ativistas e políticos.

Entre Jerusalém, Ramallah e Tel Aviv, o ministro teve nada menos que onze encontros, que começaram no domingo, com o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, e terminaram hoje, num almoço com o chanceler do país, Avigdor Liberman.

Embora o início e o fim da maratona tenham sido com autoridades de Israel, os nomes incluídos na agenda de Amorim mostram claramente a inclinação da diplomacia brasileira.  Dos onze interlocutores, nove representam de alguma forma a oposição ao governo israelense.

Em Ramallah, Amorim esteve com o premiê palestino, Salam Fayad e com o chanceler palestino, Riad Malki. Também recebeu outras duas personalidades palestinas e até arriscou fazer algumas embaixadinhas junto com jogadoras da seleção palestina de futebol feminino.

Em Jerusalém Oriental, conversou longamente com pacifistas israelenses e políticos palestinos. Um deles, Nasser al-Qidwa, sobrinho do líder palestino Yasser Arafat, causou suspeita dos seguranças israelenses encarregados de acompanhar o ministro brasileiro e quase foi revistado. No último momento, a medida foi abortada e um possível constrangimento, evitado.

Hoje de manhã, uma conversa em Tel Aviv com a líder da oposição israelense, Tzipi Livni.

Num ambiente tão polarizado como a política israelense-palestina, a agenda de Amorim não deixou dúvidas sobre a preferência do governo brasileiro, concluindo a visita com um placar definitivo: oposição/resistência 9 x 2 governo israelense.  

 

Escrito por Marcelo Ninio às 13h24

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Jerusalém e Tel Aviv, mundos que se afastam

 
 

Jerusalém e Tel Aviv, mundos que se afastam

JERUSALÉM

Embora estejam separadas por apenas 60 km, a distância entre as duas maiores cidades de Israel parece cada vez maior.

Jerusalém, a cidade sagrada para três religiões, concentra a tensão do conflito árabe-israelense, a austeridade dos judeus ortodoxos e o peso político da sede do governo.

Tel Aviv, cosmopolita e hedonista, com uma oferta de bares e restaurantes que ganha de muitas capitais badaladas da Europa, transpira liberalidade e empreendedorismo.

Em nenhum momento a distância entre os dois mundos é tão clara como na sexta-feira, ao cair da tarde.

Em Jerusalém as ruas ficam vazias e a cidade se recolhe lentamente, até mergulhar no repouso silencioso do Shabat (dia de descanso judaico), cujo início é anunciado por uma sirene.

Enquanto isso, Tel Aviv desperta para os excessos de mais um fim de semana, com praticantes de jogging suando para manter a forma, cafés lotados e um clima de flerte no ar. 

A geografia reforça as diferenças: a instrospectiva Jerusalém na montanha, a agitada Tel Aviv no lioral.

Nos últimos anos a Prefeitura de Jerusalém tem tentado conter o êxodo de judeus seculares que buscam em cidades mais liberais um cotidiano com menos influência da política e da religião. Mas os resultados, até agora, são modestos.  

Escrito por Marcelo Ninio às 13h36

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Mistério iraniano vai virar filme

JERUSALÉM

A misteriosa saga do cientista nuclear iraniano Shahram Amiri vai virar filme.

Amiri, 32, ficou mais de um ano desaparecido e ressurgiu em Washington afirmando ter sido sequestrado pela CIA, o serviço secreto americano.

Ao retornar ao Irã, onde foi recebido como herói, contou que foi torturado nos EUA na presença de agentes israelenses.

A imprensa americana ouviu de fontes da CIA que Amiri forneceu informações sobre o programa nuclear iraniano em troca de US$ 5 milhões.

Suspeita-se que ele atuou como agente duplo.

Uma trama que a produtora iraniana Sima Film pretende levar em breve às telas, segundo noticiou a agência de notícias Fars.

Não se deve esperar, porém, que todos as versões da saga sejam contempladas no roteiro. A Sima Film é ligada à TV estatal iraniana.

 

 


Shahram Amiri é recebido no aeroporto de Teerã

 

Escrito por Marcelo Ninio às 13h44

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Sexo, mentiras e a cidade sagrada

 
 

Sexo, mentiras e Jerusalém

JERUSALÉM

Estava numa notícia de pé de página do jornal "Haaretz": um palestino foi condenado a 18 meses de prisão por manter relações sexuais consentidas com uma mulher depois de fingir que era judeu.  

Apresentando-se como judeu solteiro interessado num relacionamento sério, o homem de 30 anos encontrou-se com a mulher em setembro de 2008, no centro de Jerusalém, e a convenceu a ir para um quarto próximo. Depois de fazerem sexo, deixou o local quando ela ainda se vestia.

Quando a mulher percebeu que o falso pretendente era árabe, entrou com um processo acusando-o  de estupro e ataque indecente.

Os argumentos dela convenceram a corte distrital de Jerusalém que julgou o caso, com base na definição extremamente ampla concedida nos últimos anos pela lei israelense para crimes sexuais, justamente para proteger as vítimas.

Na segunda-feira, o réu foi condenado por "estupro por fraude". Os juízes jusitificaram a sentença rigorosa afirmando que "a corte tem o dever de proteger o interesse público de criminosos sofisticados, de boa lábia, capazes de enganar vítimas inocentes".

O caso foi assunto de um dos principais programas de debate da TV israelense, onde os sarcásticos apresentadores não perderam a oportunidade de insinuar motivações políticas na sentença, pelo fato de o dissimulado Don Juan ser árabe e a vítima, judia. 

Se a moda pega em outros países, vai faltar juiz para julgar todas as mentiras contadas em encontros românticos.

 

Escrito por Marcelo Ninio às 15h00

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Incerteza no Egito

JERUSALÉM

Hosni Mubarak é presidente do Egito desde 1981. Se o roteiro de seus dois antecessores se repetir, só a morte o tirará do poder.

E ela anda rondando o palácio presidencial, segundo notícias cada vez mais insistentes que circulam nas últimas semanas. A mais recente está na edição de hoje do "Washington Times".

Citando informações de agências de inteligência ocidentais, o diário conservador afirma que o ditador egípcio, de 82 anos, sofre de câncer terminal no pâncreas e no estômago e que estará morto antes das próximas eleições presidenciais, marcadas para setembro de 2011.

É a previsão mais definitiva desde que os rumores se fortaleceram, em março, quando Mubarak, sofreu uma cirurgia para a retirada da vesícula na Alemanha.

No Egito, autoridades negam os rumores e afirmam que a saúde de Mubarak vai bem, o que é difícil comprovar. A história mostra que a transparência não é o ponto forte dos regimes árabes, sobretudo quando o assunto é o estado de saúde de seus líderes e a sucessão.

Na foto divulgada ontem do encontro com o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, Mubarak não dá sinais de estar doente, exatamente a impressão que o governo egípcio quis passar.

Mubarak (D) e Netanyahu, ontem no Cairo

Mubarak (D) e Netanyahu ontem, no Cairo

A possível deterioração da saúde de Mubarak desperta o temor de instabilidade devido à centralização do poder no país. Embora a Constituição egípcia estabeleça o período do mandato presidencial de seis anos, não há limite para reeleição. Desde que Gamal Abdel Nasser derrubou a monarquia, em 1952, a sucessão no Egito só ocorreu com a morte do presidente. Foi assim com Nasser, morto por um enfarte em 1970, e com seu sucessor, Anuar Sadat, assassinado por terroristas islâmicos em 1981.

A diferença é que Mubarak não tem um sucessor natural, pois jamais nomeou um vice-presidente. A proximidade das eleições, junto com as notícias sobre sua saúde, tem alimentado intrigas dentro e fora do país. O próprio presidente já disse que pretende servir o país até "o último suspiro". Assessores questionados sobre a eleição de 2011 costumam dizer que ninguém é mais qualificado que "o Sr. Mubarak".

A resposta tem algo de enigmático e indicaria os esforços do atual presidente para guardar o trono presidencial para o filho Gamal Mubarak, 47, que fez carreira na área financeira e é um dos líderes do partido governista.

A oposição a uma sucessão "faraônica" ganhou um nome de peso em janeiro, com a volta ao Egito de Mohamad Elbaradei. O ex-chefe da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) cargo em que recebeu o Nobel da paz, aposta em seu prestígio internacional para conseguir a aprovação de uma emenda constitucional que lhe permita concorrer às eleições presidencias do ano que vem.

Entretanto, numa ditadura em que o Exército é visto como a principal garantia do governo contra a "ameaça islâmica", a reputação no exterior vale menos que os laços com o poder. É por isso que o chefe da inteligência egípcia, Omar Suleiman, é apontado como o mais forte candidato, caso o presidente não consiga emplacar o filho.

O risco de que Mubarak desapareça sem deixar um sucessor preocupa muitos, na região e fora dela. Recentemente, a publicação americana "World Tribune", especializada em temas internacionais, noticiou que o governo Obama pediu a Mubarak que antecipe as eleições, a fim de evitar um vácuo no poder.

Qualquer movimento brusco pode significar drásticas consequências regionais. O Egito certamente perdeu muito de sua influência desde os tempos de Nasser. Mas continua tendo importância central no xadrez político do Oriente Médio.

Escrito por Marcelo Ninio às 09h34

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Dilmah na Palestina

RAMALLAH 
 
A sensação de universo paralelo que se tem na Cisjordânia, o território palestino que fica além do muro construído por Israel, é reforçada pela "criatividade" de alguns comerciantes.

No centro de Ramallah, a maior rede de cafeterias do mundo, Starbucks, parece ocupar um lugar de destaque, com vista privilegiada para a fervilhante praça Al Manara, a principal da cidade. Mas num segundo olhar percebe-se que o mesmo logotipo da rede americana foi usado para uma iniciativa local: o "Star & Bucks". Muitos forasteiros só se dão conta de que é mais um café em estilo árabe quando entram no ambiente tomado pela fumaça adocicada dos narguilés.

Também em Ramallah, um dos melhores hotéis disponíveis é o Best Eastern, versão "oriental" do Best Western, gigante hoteleiro dos EUA.  De novo, o mesmo logo original, com uma pequena alteração no nome.

Mas certamente o que mais chama a atenção de um brasilero que passa por Ramallah é um outdoor logo na entrada da cidade, perto do muro e do campo de refugiados de Kalandia. Junto aos dizeres em árabe está lá: Dilmah. Não, não é uma encarnção palestina da candidata do PT à Presidência, mas o anúncio de uma marca de chá do Sri Lanka.

O chá, aliás, é forte, e um tanto amargo. 

Escrito por Marcelo Ninio às 07h07

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Reféns de um conceito

 JERUSALÉM
 

Reféns de um conceito

Erros, sim. Negligência, não.

Resumindo, essa é a conclusão da primeira investigação realizada por Israel sobre a desastrada ação naval que deixou nove ativistas turcos mortos e fez naufragar a imagem internacional do país, na madrugada de 1º de junho.

Pressionado a prestar contas sobre o incidente, Israel criou duas comissões de inquérito, uma militar e outra civil. As conclusões divulgadas ontem são as do time de especialistas militares, que limitou o escopo de sua investigação ao planejamento das Força Armadas, sem entrar no processo de decisão político. Para isso, foi criada a outra comissão, que inclui dois observadores estrangeiros e continua reunida.

 Não há grandes novidades no limitado relatório divulgado à imprensa (a maior parte do documento de 100 páginas, que foi encaminhado ao comando do Exército, foi posto sob censura). Não são apontados culpados e é feita uma enorme ginástica semântica para criticar o planejamento e a forma como a ação foi conduzida sem "queimar" os militares envolvidos.

 Para os investigadores, diante de ativistas violentos, que ameaçavam a vida dos soldados, não havia alternativa a não ser o uso de armas de fogo. Não há explicação, porém, para a questão-chave do episódio: como Israel não se preparou para um confronto no Mavi Marmara, o maior navio da fotilha humanitária que tentava furar o bloqueio à faixa de Gaza.

Cinco dias antes da chegada dos navios, quando a retórica dos ativistas começava a se tornar mais inflamada e a imprensa e o governo israelenses continuavam indiferentes, um palestino morador de Gaza com quem costumo conversar por telefone me alertava: "Fique de olho, porque isso não vai acabar bem. Os turcos que estão na flotilha são radicais e estão prontos para o confronto".

No Mavi Marmara, como se sabe, havia ativistas do mundo inteiro, até uma do Brasil, a cineasta Iara Lee. Mas os mais radicais eram os turcos da organização islâmica IHH, que tem relações próximas com o grupo Hamas, que controla a faixa de Gaza. Como é possível que somente Israel não soubesse que eles estavam dispostos ao confronto?

Uma expressão incluída no relatório militar talvez explique isso. Para os investigadores, a falha de inteligência decorreu do fato de que os comandantes estavam "reféns de um conceito", o de que bastava os soldados abordarem o navio para que os ativistas se rendessem. O comando militar não se deu conta da hostilidade contra Israel que existe em alguns meios, principalmente em organizações como a IHH. Reféns de um conceito, não se prepararam como deveriam.

Agora, um navio líbio ameaça fazer o mesmo percurso para entregar ajuda humanitária à população de Gaza. As lições do Mavi Marmara ainda continuam frescas. Resta saber se os conceitos mudaram. De ambos os lados.

 

 

 

 

Escrito por Marcelo Ninio às 14h38

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